Título: Morre Octavio Frias de Oliveira, publisher do Grupo Folha
Autor: Mayrink, José Maria
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/04/2007, Vida&, p. A11

Morreu ontem à tarde, aos 94 anos, Octavio Frias de Oliveira, publisher do Grupo Folha. A morte ocorreu às 15h25 em decorrência de complicações que começaram em novembro, quando sofreu uma queda em casa e precisou ser submetido a uma cirurgia para a remoção de um hematoma craniano.

Nas últimas semanas, o quadro clínico do empresário piorou. Ele teve uma insuficiência renal grave e estava inconsciente havia alguns dias. Até as 20h30, ainda não havia sido definido onde o corpo seria velado nem detalhes do enterro de Frias.

ADOLESCÊNCIA DIFÍCIL

Carioca por acidente, o jornalista Octavio Frias de Oliveira nasceu no bairro de Copacabana, na casa dos avós, em 5 de agosto de 1912, quando sua família morava em Queluz, na divisa de São Paulo com o Estado do Rio. Nessa cidade, seu pai, Luiz Torres de Oliveira, era juiz. Descendente de nobres endinheirados, os barões de Itambi e de Itaboraí, ele atravessou infância e adolescência apertadas em São Paulo.

Ainda menino, Frias precisou arrumar emprego para ajudar nas despesas, quando estudava no Colégio São Luís, na Avenida Paulista. Usava sapatos furados e andava de bonde, enquanto os colegas ricos desfilavam de carro.

Começou aí a carreira do futuro empresário que faria do trabalho uma paixão. Foi office-boy, vendedor de aparelhos de rádio, funcionário público, incorporador imobiliário, corretor de títulos, banqueiro e criador de frangos, antes de comprar a Folha de S. Paulo, uma decisão que mudou sua vida, aos 50 anos de idade.

Pagou a fatura com cheque, numa sexta-feira, 13 de agosto de 1962, avisando que o dinheiro só estaria disponível três dias depois. Era um negócio de ocasião, porque não tinha a intenção de investir na imprensa. Frias conhecia bem a Folha, pois uma pequena corretora de sua propriedade, a Transaco, havia vendido assinaturas do jornal, mas não era do ramo.

¿Não tinha nenhum gosto pela atividade¿, revelou ao jornalista Engel Paschoal, autor do livro A Trajetória de Octavio Frias de Oliveira, biografia lançada em agosto, com informações dele e depoimentos de amigos e colaboradores.

¿Eu passei minha vida lendo o Estado, até chegar à Folha, mas não era um grande leitor de jornal¿, acrescentou o empresário na entrevista. Fez o negócio pensando só em ganhar dinheiro e porque era amigo dos donos do jornal, José Nabantino Ramos e Clóvis Queiroga, seu cunhado, conforme relata no livro.

Frias era funcionário público da Recebedoria de Rendas da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo, quando estourou a Revolução Constitucionalista, em 1932. ¿Eu não acreditava naquela revolução, achava que nós íamos perder, mas a pressão era tão grande que resolvi me alistar também, para desespero de meu pai, que não queria que eu fosse de jeito nenhum.¿

Ele achava que ¿aquilo era sacanagem dos paulistas da UDN¿, mas foi lutar nas trincheiras. A UDN, à qual Frias se referia, era a sigla da União Democrática Nacional, partido de oposição que só seria fundado 13 anos depois, em 1945.

GOSTO PELO ESPORTE

Contemporâneo do escultor Brecheret, do pintor Di Cavalcanti e do poeta Guilherme de Almeida, que também lutou em 1932, Frias não queria saber de vida intelectual. Gostava de praticar esportes.

Jogava futebol e tênis, torcia pelo Paulistano e depois pelo São Paulo, treinava no Palmeiras e descia a serra pelo Caminho do Mar para nadar em Santos. Andou a cavalo até os 83 anos, esquiou até os 84, mergulhou até os 89, praticou ioga e dirigiu até os 92.

Em 1947, Frias casou-se com sua primeira mulher, Zuleika Lara de Oliveira, que morreria num acidente de automóvel - ela e um irmão de Frias, oito anos depois, quando ele bateu de frente num caminhão, na Via Dutra. Voltavam de São José dos Campos, onde o empresário montou a Granja Itambi para a produção de frangos. Nunca chegou a ser um bom negócio, mas era um passatempo que adorava. Segundo sua filha Maria Cristina, ele sempre dizia que gostava mais da granja do que da Folha.

Aos 36 anos, Frias pediu demissão no emprego público para se tornar sócio do Banco Nacional Imobiliário (depois Inter-Americano), com participação de 10% do capital.

¿Entrei com a cara e a coragem. Quem entrou com o dinheiro foram os acionistas que nós arrumamos. Eu não entendia nada de banco. Mas sempre fui um homem que sabia organizar as coisas¿, essa foi a explicação que Frias deu para sua aventura de banqueiro. Quando o BNI quebrou, após financiar a campanha eleitoral de Orozimbo Roxo Loureiro, sócio majoritário, Frias sofreu o baque, embora estivesse licenciado.

RECOMEÇO

Com os bens bloqueados, foi obrigado a recomeçar do nada. Dedicou-se então à Transaco, a corretora que vendera, com sucesso, assinaturas da Folha. Estendeu seus negócios ao Rio, onde vendeu também assinaturas da Tribuna da Imprensa e distribuiu material de propaganda de Carlos Lacerda na campanha para o governo do então Estado da Guanabara. ¿Inundei o Rio com placas do Carlos Lacerda, com 30% de comissão¿, lembrou Frias no depoimento a Paschoal. Ele sabia ganhar dinheiro e aplicava tudo a juros.

Nos negócios imobiliários, Frias se tornou sócio de Carlos Caldeira Filho, que havia lançado um condomínio, a preço de custo, em Santos, onde foi contratado pelo BNI. Foram sócios e amigos. Um dos empreendimentos de maior sucesso da dupla foi o Edifício Copan, que o arquiteto Oscar Niemeyer projetou para a comemoração do 4º Centenário de São Paulo, em 1954. Outro bom negócio foi a construção da Estação Rodoviária, no centro da cidade. Iniciativa de Caldeira, o terminal deu lucro desde o dia da inauguração, em 1961.

Em 1955, passou a morar com Dagmar de Arruda Camargo, quando ela se separou do marido. Oficializaram a união dez anos depois, quando Dagmar já era viúva. Ela trazia uma filha do primeiro casamento, Maria Helena, e teve mais três com Frias - Otavio, Maria Cristina e Luís. Havia também Beth, a filha que ele havia adotado com Zuleika, sua primeira mulher. Criada por uma tia, Beth, que estudou e se tornou bailarina, morreu em fevereiro de 1981.

Ao comprar a Folha, o empresário que não queria saber de jornal instalou-se no quinto andar do prédio da Alameda Barão de Limeira, onde ele e Caldeira ocupavam salas vizinhas. Confiou a redação ao jornalista José Reis e dedicou toda a atenção à situação econômica e financeira da empresa.

Em 1965, comprou também os jornais Última Hora e Notícias Populares, aos quais se somavam a Folha da Tarde na capital e a Cidade de Santos, no litoral. O vespertino Folha da Tarde foi uma dor de cabeça para o empresário durante o regime militar, quando passou das mãos de uma equipe de esquerda, em 1969, para um grupo de direita, nos anos seguintes.

Depoimentos de editores que trabalharam na empresa naquela época atestam a infiltração de policiais na redação e a utilização de caminhões de transporte da Folha em missões clandestinas do DOI-Codi, órgão de repressão da ditadura.

A situação mudou a partir de 1976, quando o jornal abriu suas páginas para o debate pluralista de idéias, iniciativa que todos creditam a Frias. Em 1983, o jornal apoiou a campanha Diretas Já, que levou multidões às ruas, no ano seguinte, numa mobilização nacional pela eleição direta do presidente da República. Esse engajamento político aumentou o prestígio e a credibilidade da Folha entre os leitores.

`FARO DE JORNALISTA¿

Embora sempre fizesse questão de dizer que era empresário, Frias ¿tinha alma e faro de jornalista¿, observa o repórter Ricardo Kotscho, que trabalhou diretamente com ele. ¿Por isso, costumava chamar à sua sala, independentemente da função que exerciam, profissionais de diferentes áreas da redação¿, escreveu Kotscho em seu livro Do Golpe ao Planalto. Entre esses jornalistas, destaca-se o nome de Cláudio Abramo, braço direito de Frias, que gostava de discutir com ele sobre socialismo e capitalismo.

Frias sabia ganhar dinheiro, mas não era homem de luxos nem de coisas supérfluas. Costumava usar roupas velhas, sem nenhuma vaidade. ¿Dinheiro só terá sentido enquanto estiver, de alguma forma, a serviço da sociedade¿, ensinava aos filhos, aos quais transferiu cedo a condução dos negócios. Isso jogou sobre eles um ¿peso um pouco massacrante¿, observou Otavio Frias Filho, diretor de redação desde 1984. ¿Pus os filhos para trabalhar já há algum tempo¿, disse o empresário no fim da vida, satisfeito com essa decisão.

Ao receber o prêmio Personalidade da Comunicação 2006, em maio, Frias fez um balanço positivo de sua trajetória. ¿Tive algum êxito como empresário. Consegui dar minha modesta contribuição no grande trabalho coletivo de criar riquezas, gerar empregos, fortalecer empresas e lançar produtos. Atribuo esse êxito ao trabalho perseverante e a alguma sorte¿, declarou em seu discurso.

Dizia que cometeu muitos pequenos erros, mas nenhum grande, porque sempre foi muito cauteloso. Não se arrependia de nada, ¿faria tudo igualzinho¿, mas não compraria a Folha, ¿porque não teria dinheiro para pagar o que ela vale hoje¿.

Ao se aposentar, continuou a se interessar pelo dia-a-dia do jornal. Acompanhava de perto os editoriais, discutia alguns assuntos específicos com os filhos e participava da orientação geral, mas sem função executiva.