O globo, n. 30460, 29/12/2016. Rio, p. 6

 

Acerto de contas

CÉLIA COSTA

LUIZ ERNESTO MAGALHÃES

granderio@oglobo.com.br

 

O prefeito eleito Marcelo Crivella (PRB) contestou ontem dados de um estudo sobre o desempenho fiscal da prefeitura, entre 2009 e 2016, coordenado pelo economista José Roberto Afonso. A análise concluiu que o caixa do município, que investiu R$ 38 bilhões em oito anos, passa ao largo da crise econômica. Para Crivella, o resultado, divulgado pelo atual prefeito Eduardo Paes, sugere que a realidade carioca é de “mar de tranquilidade”, quando, na verdade, é de “crise grave”. A equipe de Crivella apresentou outros números, que apontam para um quadro de queda de arrecadação e de aumento de gastos com pessoal, em especial na educação. A previsão é de um déficit de R$ 4,4 bilhões nos cofres municipais em 2017. Paes voltou a dizer que as contas estão equilibradas e que reduziu gastos com pessoal e o peso da dívida.

Ontem, o próprio economista José Roberto Afonso disse que desconhece os dados do futuro prefeito. Ele afirmou, entretanto, que o estudo não se dedicou a fazer projeções para o próximo ano. Apesar disso, Afonso argumentou que faltam explicações da equipe econômica de Crivella sobre a previsão de déficit. Ele observou que, mesmo com uma queda do ISS, principal imposto municipal, no ano que vem, o quadro apontado pelo futuro prefeito não seria possível. De 2015 para 2016, a arrecadação do tributo caiu cerca de 5%, mas fechou o ano em R$ 5,6 bilhões.

— Nós arrecadamos com ISS cerca de R$ 5,6 bilhões em 2016. Ainda que os serviços estejam em queda, certamente não perderemos três quartos da arrecadação — garantiu.

Mas Crivella, afirmando que cortará investimentos, prevê que o PIB deverá ficar estagnado, que a receita vai cair e que os gastos com o serviço da dívida municipal, de cerca de R$ 10 bilhões, vão pesar nas contas. Paes sustenta que deixa o caixa no azul e R$ 1,9 bilhão para quitar restos a pagar de R$ 1,7 bilhão em janeiro. O estudo contratado pelo prefeito sobre seus oito anos de gestão concluiu que a situação econômica do Rio é muito boa, sem qualquer possibilidade de um colapso, a exemplo do que acontece no momento com o estado. Paes disse ainda que o orçamento de 2017, aprovado pela Câmara dos Vereadores, passou por ajustes, a pedido da equipe de Crivella.

— Não vou ser comentarista de projeções do futuro prefeito. Nós fizemos uma gestão com austeridade em um momento econômico difícil para o país — rebateu.

Já Afonso disse que essa dívida não deverá consumir mais do que 4% da receita nos próximos anos. Segundo ele, em média, os financiamentos têm prazo de vencimento superior a sete anos e taxa de juros de 4,1% anuais, considerada baixa. O economista voltou a rebater as previsões de Crivella e disse que o Rio está em situação confortável:

— É uma situação muito confortável comparada à dos demais governos e, sobretudo, à de empresas e famílias, que pagarão em um único mês muito mais do que a taxa que a prefeitura pagará em um ano. Para Crivella, é preciso afinar o discurso: — Precisamos, eu e o Eduardo, afinar esse discurso para não provocar expectativas que não possam ser atendidas. Não fui o candidato das promessas e não serei o prefeito das ilusões. Não podemos, de jeito nenhum, brincar com as esperanças e expectativas do povo. É preciso passar a realidade como ela é. E a realidade é de uma grave crise.

A equipe econômica de Crivella que trabalha na transição fez projeções indicando que a queda na arrecadação pode elevar os gastos com pessoal e deixá-los numa situação crítica em 2017, chegando a 60% da receita corrente líquida (RCL). Pela Lei de Responsabilidade Fiscal, o limite máximo para essas despesas é de 54%. Porém, nas contas de Paes, esse percentual hoje está em 48% da RCL, inclusive abaixo da margem de alerta prevista na lei.

Na avaliação da equipe de Crivella, a prefeitura terá que passar por um ajuste fiscal rigoroso. Para reduzir as despesas com pessoal, serão cortados 50% dos cargos comissionados. Além disso, fornecedores serão chamados para renegociar contratos e uma auditoria vai ser feita na folha de pagamento. Outras medidas serão anunciadas pelo novo prefeito em breve. Uma das ideias é tentar arrecadar pelo menos R$ 300 milhões com a venda dos créditos a receber da dívida ativa.

— Vamos cortar pelo menos metade dos cargos comissionados. Como é que vou poder sentar para negociar com fornecedores se eu mesmo não demonstrar que estou economizando? — disse Crivella.

Futura secretária municipal de Fazenda, Maria Eduarda Gouvêa Berto argumenta que o orçamento da prefeitura é elaborado no primeiro semestre do ano anterior ao da execução. Na época em que a proposta foi feita, ela diz que a atual gestão trabalhou com um cenário de crescimento econômico. Mas as projeções do mercado indicam que esse crescimento deverá ficar próximo a zero, interferindo na arrecadação. Pelas projeções de Maria Eduarda, no melhor dos cenários, a prefeitura tem assegurada uma receita de R$ 26,1 bilhões em 2017 e ainda precisará obter novas fontes para se manter.

— A prefeitura havia previsto que teria R$ 30,8 bilhões para investir em 2016. Mas, até esta quarta-feira, só havia arrecadado R$ 27 bilhões — afirmou a futura secretária.

A equipe de Crivella também estima que, em 2017, a prefeitura deverá gastar cerca de R$ 1,3 bilhão com o serviço de sua dívida, o que representa um aumento de 60% em relação às despesas deste ano. Ela prevê ainda um gasto de R$ 600 milhões para cobrir o déficit previdenciário.

O economista José Roberto Afonso diz que a questão previdenciária é difícil em todo o país, mas que o Rio ainda tem um raio de manobra maior do que o de outros governos:

— O déficit financeiro apurado até aqui tem sido coberto com recursos próprios do fundo (previdenciário) — explica, acrescentando que a prefeitura tem opções para capitalizar o sistema. — O município pode adotar um plano capitalizado para novos servidores, majorar alíquotas das contribuições dos ativos e estender a mesma cobrança para seus inativos.

A Secretaria de Fazenda informou, por nota, que as projeções de Crivella não fazem qualquer sentido diante da realidade econômica do município.