Título: O último vôo de um beija-flor
Autor: Gustavo de Almeida
Fonte: Jornal do Brasil, 27/03/2005, Rio, p. A18

Ilda Prado, liderança da Baixada, foi assassinada por se recusar a colaborar com o tráfico de drogas. Sua família vive escondida

Eu sou impotente. Sou como um beija-flor - disse uma vez Ilda Prado ao cineasta Felipe Nepomucemo. Há 15 anos, Ilda abandonava a vida de moradora de Copacabana, onde vivia com o marido - um chef de restaurante de hotel - e os dois filhos, para viver no mato, literalmente. Queria fazer de Capivari um lugar decente para se viver. No passado, ficou a vontade de ser atriz. Foi figurante em algumas novelas e filmes, e não passou disso. Acabou se tornando uma celebridade em seu mundo: distribuía comida, ajudava os pobres, fazia mutirões de limpeza, socorria os doentes. Um dia, tudo mudou. Duas crianças apareceram mortas, violentadas. Ilda passsou a cuidar da vida de mulheres e crianças ameaçadas por estupradores. Formou um grupo de mulheres, as Justiceiras de Capivari, para exigir a punição dos culpados.

Certa vez, ficou com o grupo na porta da delegacia até ter certeza de que o preso ficaria encarcerado. ''Se ele sair, a gente mata'', ameaçou, sem nunca ter cumprido tal promessa de fato.

A morte só veio para ela própria: no dia seguinte ao Dia Internacional da Mulher a história triste do fim da líder comunitária Idacilde do Prado Lameu - ou apenas Ilda Prado - de 58 anos, um expoente entre as pessoas que fazem a ligação entre os pobres e os ricos, tombou com vários tiros na porta de casa.

A imagem de Ilda, imponente, armada com um facão circulando pelas ruas sem calçamento do bairro pobre, era quase uma marca de um Rio à margem.

No dia 9 de março, esta imagem se transformou em apenas mais um cadáver. Por resistir ao tráfico de drogas, Ilda foi assassinada. ''É nós'', disseram os executores da sentença, ao baterem palmas à porta da casa da vítima. A frase, sempre associada à facção organizada conhecida como Comando Vermelho, funcionava como uma espécie de sinal, que partia daqueles que Ilda combatia ao mesmo tempo em que tentava conviver.

O fim veio com um tiro no rosto e quatro outros que atingiram a região da nuca e ouvidos. O corpo de Ilda ficou aguardando rabecão durante a madrugada. Do lado policial, só descrédito - houve quem dissesse que as Justiceiras eram uma lenda.

Será? Nos anos que separaram a partida provisória e a definitiva, Ilda, cansada da impunidade e da ausência do poder público em Capivari, arregaçou as mangas e criou um grupo de repressão ao crime. Não era uma simples milícia, e sim mulheres indignadas que formaram as Justiceiras de Capivari. Os limites da lei foram alterados. Cerca de 100 mulheres se reuniram com ancinhos, foices, porretes, martelos, lutando contra a ação de estupradores, traficantes e molestadores de crianças.

Dona Ilda, como era chamada, também servia refeições de graça em sua casa, mesmo local em que acabou morta, horas depois de pedir à Polícia Militar reforço para sua comunidade.

O socorro veio tarde, a ação obviamente não trouxe Ilda de volta. Mas seis dias depois foi preso Tiago Mauro Alves de Souza, 24 anos, acusado de ser gerente do tráfico de drogas de Capivari. Durante o depoimento, Tiago revelou que o tráfico na região é comandado por Merinália de Oliveira, conhecida por Meri ou Índia, de 32 anos. Tiago disse que foi Índia quem mandou matar Ilda - com a força de quem comanda 30 traficantes.

Hoje a Prefeitura de Caxias tem planos de instalar um posto de saúde na casa que era de Ilda, uma referência na comunidade. A polícia passa 24 horas por dia na casa, tomando conta, já que houve ameaças de incêndio por parte dos bandidos. As mesmas ameaças à família de Ilda, que abandonou o sítio onde moravam há anos. As mulheres que formavam as Justiceiras hoje vagam sem rumo, ameaçadas por aqueles que carregam crimes nas costas e nada na consciência.

- As armas de Ilda eram o coração e a mente - define Nepomucemo.