O Globo, n. 32793, 20/05/2023. Política, p. 6

“Ideia da oposição é criminalizar o movimento e desgastar governo”

Entrevista: Sâmia Bomfim


Como defender o MST, um movimento social que promove invasão de propriedade privada?

O MST é um movimento histórico responsável por diversas ocupações que resultaram em reforma agrária. Não há nenhum assentamento de terra no Brasil que não tenha ocorrido por meio desse método legítimo. O uso social da propriedade improdutiva é previsto na Constituição, por isso é muito tranquilo defender o direito à reforma agrária ligado a movimentos sociais.

Mas nem sempre as invasões têm ocorrido em terrenos improdutivos. Tivemos o caso da Embrapa no mês passado, por exemplo. Como isso pode ser justificado?

Existem ações que não necessariamente têm a ver com a reapropriação daquela terra. O objetivo é, às vezes, fazer um questionamento ou pressão. É um método legítimo para chamar a atenção às demandas do movimento. Não necessariamente aquele terreno será usado para reforma agrária.

Os deputados da oposição afirmam que o governo tem participação nas invasões deste ano. Qual é sua avaliação sobre isso?

Não tenho conhecimento de participação do governo.

Mas o governo tem feito acenos ao MST. Qual sua opinião sobre as nomeações no Incra (Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária)? Por que o movimento precisa desses cargos?

O próprio movimento saberia responder melhor.

Ministros estiveram na 4ª Feira Nacional da Reforma Agrária. Essa aproximação com o movimento social deveria ser prioridade do governo?

Acredito que o governo deve priorizar pautas sociais que são urgentes, como as reformas estruturais, e a reforma agrária é uma dessas pautas.

Enquanto ministros estiveram na feira do MST, Carlos Fávaro (ministro da Agricultura) não foi à Agrishow. Acredita que esses episódios prejudicam a imagem do governo com o agronegócio? Vê erros por parte de Lula e seu governo?

Não vejo essa indisposição do governo com o agronegócio. O governo tem diálogo. A própria viagem à China teve esse papel com a exportação, nosso principal mercado consumidor. O agro não é um fantasma. Agora, há setores bolsonaristas do agronegócio que financiaram a campanha do ex-presidente e fazem uma movimentação política para desgastar o governo Lula. Ricardo Salles é grande parte disso. Ele foi financiado por latifundiários de São Paulo e vem articulando esse movimento.

A oposição é maioria no colegiado e ocupa todos os cargos de maior relevância. Acredita que a CPI será um palanque de ataque ao governo?

Sem dúvida, esse é o objetivo. A oposição vai querer questionar o governo, trazer ministros, criminalizar e enfraquecer o movimento social. Alguns também querem usar como palanque eleitoral e prestar contas para seus financiadores de campanha, que estão envolvidos nos conflitos de terra ou até na invasão de terras indígenas.

Como será sua atuação na CPI?

Vamos expor as contradições deles: a invasão às terras indígenas, o trabalho análogo à escravidão que ocorre dentro das propriedades, a degradação ambiental...

Usará o colegiado para defender pautas antigas como a reforma agrária?

Sem dúvida, acho que de certa forma essa CPI pode gerar o efeito contrário. Vi isso pela própria feira da reforma agrária. Pessoas de classe média se encantando pelo conceito e conhecendo outras produções rurais no país.

Na tarde de quarta-feira, quando a CPI foi instalada, a senhora afirmou que Salles não deveria estar no colegiado. Por quê?

O relator não é uma figura tradicional da Frente Parlamentar Agropecuária. Ele surfou na onda do bolsonarismo, foi ministro internacionalmente criticado e responde na Justiça por crimes ambientais. Tem interesse político.

Em contrapartida, Salles te acusou de empregar a mulher do José Rainha em seu gabinete. Diolinda é sua servidora há mais de um ano, certo?

Ela é ex-esposa, mais de uma década separados. É uma liderança histórica. O artigo quinto do nosso Código de Ética da Câmara fala da impossibilidade de a relatoria ser enviesada por pessoas que tenham interesses particulares e foi isso que argumentei sobre Salles — tem interesse econômico, político e ideológico. Não tem cabimento a comparação.

Qual é o objetivo desta CPI?

Com certeza, é uma revanche dos bolsonaristas que querem seguir aglutinando a base social e dialogando com seus financiadores. É tirar o foco dos crimes: a CPI foi proposta logo que começou a ser viabilizada a CPI que vai apurar os ataques de 8 de janeiro e que Bolsonaro começou a depor na Polícia Federal. O intuito é criar uma falsa comparação.