Título: PT: pensar para frente
Autor:
Fonte: Jornal do Brasil, 11/11/2005, Opiniao, p. A15

O PT introduziu novidades na política brasileira como a democracia interna (que não conseguiu evitar desvios do grupo dirigente), o orçamento participativo, a maneira nova de organizar o mandato dos eleitos em orgânica relação com as bases. E inegavelmente o acento (embora ainda insuficiente) nas questões sociais numa perspectiva emancipatória.

Retomar tais opções é uma forma de sair da crise e ocasião para a inteligentsia do partido repensar uma agenda voltada para o futuro. Seria um aspecto de sua renovação interna e um avanço para dentro da nova consciência que está emergindo por todas as partes. Mais e mais se percebe o caráter global dos problemas humanos e a interdependência entre humanidade e meio-ambiente. O paradigma que predominou nos últimos séculos de intervenção sistemática na natureza para utilizar todos os seus recursos está se revelando demasiadamente destrutivo, especialmente na Amazônia. O aquecimento do planeta e a escassez de água potável anunciam desastres apavorantes. De uma sociedade de produção industrial há que se passar para uma sociedade de sustentação de toda a vida. De uma economia da acumulaçao ilimitada para uma economia do suficiente para todos. Diz a Carta da Terra: ''Ou fazemos uma aliança global para cuidar da Terra e uns dos outros, ou arriscamos a nossa destruição e a devastação da diversidade da vida''.

Esse cenário é bem fundado, não é alarmista. No entanto, não há consciência nos políticos da gravidade da situação, que exige políticas globais que dêem centralidade à Terra. Nesse quadro, o Brasil ocupa um lugar singular: somos a potência das águas, possuímos a maior biodiversidade do planeta, dispomos das maiores florestas tropicais do mundo, abunda a biomassa, fonte de energias alternativas junto com ricas reservas de materiais raros, importantes para as novas tecnologias. Além disso, apresentamos um ensaio civilizatório expressivo com uma população criativa e aberta ao encontro com todas as demais culturas e sem fundamentalismos.

Concretamente significa que um governo que pensa para frente não deve ficar refém do atual paradigma dominante que constrange a todos a reproduzi-lo. Deve criar estratégias de desenvolvimento que aproveitem estas vantagens comparativas, pois podem beneficiar altamente a nós e à humanidade inteira.

Mais e mais percebemos que, dentro de poucos anos, o decisivo mesmo não é a economia humana com seu PIB de 15 trilhões de dólares/ano, mas a economia natural que, se fôssemos pagar o que aporta gratuitamente, deveríamos desembolsar 33 trilhões de dólares/ano.

Tais temas deveriam entrar na nova política pensada pelo PT. Logicamente com um pé estará dentro do sistema, pois não há como esquivar-se dele, mas com o outro deve pisar terra nova. Aqui dever-se-ão tentar novas formas de produção com a natureza e jamais à custa dela, uma economia solidária e cooperativa, modos de produção diversificados que rompam a ditadura do modo de produção capitalista.

Se no Brasil se verifica, em miniatura, toda a tragédia da humanidade sofredora, oferece-se aqui também toda a chance de construção de novo modo sustentável de viver. O governo petista do Acre com seu conceito de ''florestania'' está mostrando a viabilidade desse novo olhar. Eis por que, na reconstrução do PT, tudo isso deve ser tomado em conta.