Título: Lula afina discurso com Uruguai
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 28/02/2005, Nacional, p. A5

Em meio ao turbilhão gerado por suas declarações sobre supostas irregularidades praticadas pelo governo Fernando Henrique Cardoso, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva deverá desembarcar amanhã em Montevidéu apenas duas horas e meia antes do início da cerimônia de posse do primeiro socialista a ocupar a Presidência do Uruguai, o médico oncologista Tabaré Vásquez. Protegido por forte aparato de segurança e pelas restrições do novo governo esquerdista ao acesso da imprensa aos eventos, Lula estará à vontade para iniciar um trabalho bastante árduo para afinar as posições do Brasil e do Uruguai em torno do Mercosul e de ambições na esfera mundial. Sem perspectivas, porém, de resultados imediatos.

O desembarque do presidente está previsto para as 12 horas de amanhã (11 horas, em Brasília). Às 14h30 (13h30, em Brasília) assistirá ao juramento de Vásquez, na Assembléia Geral, e depois à entrega da faixa presidencial por Jorge Batlle a seu sucessor, no Palácio Estévez, antiga sede do governo uruguaio. No dia seguinte, depois de um café da manhã com os presidentes Néstor Kirchner, da Argentina, e Hugo Chávez, da Venezuela, Lula e Vásquez darão o primeiro sinal da linha de maior cooperação bilateral.

Juntos, os presidentes vão inaugurar uma fábrica de malte da Ambev em Paysandu, na divisa com a Argentina. Trata-se de um investimento de US$ 5 milhões da empresa brasileira na conversão de uma indústria de cerveja que seria, em princípio, fechada.

O gesto sinalizará o interesse mútuo em uma agenda positiva entre um "sócio maior" e um "sócio menor" do Mercosul, focada na integração de cadeias produtivas e na ampliação do comércio. Os demais projetos - nas áreas de energia e de transportes - serão debatidos no encontro já agendado entre Vásquez e Lula, em Brasília, no próximo dia 22.

Entretanto, a inauguração e as intenções de lado a lado não serão fortes o bastante para encobrir as últimas rusgas entre os dois vizinhos. Na última sexta-feira, o governo brasileiro deu ultimato ao setor de laticínios uruguaio ao informá-lo de que está pronto a aumentar a taxação sobre o leite em pó uruguaio, caso não seja revisto o acordo de preços fechado em 2001 com os produtores brasileiros. Do lado uruguaio, as afinidades também são relativas.

Embora Vásquez tenha declarado várias vezes a prioridade que conferirá ao Mercosul e à integração sul-americana, seu ministro da Economia, Danilo Astori, sempre se refere ao interesse essencial na maior aproximação do Uruguai com os Estados Unidos e a União Européia. Ao mesmo tempo, focado na necessidade de atrair investimentos estrangeiros ao país, o novo governo não dá sinais de que reverá o acordo fechado com o governo americano nesta área. O acordo, que prevê como o Uruguai tratará os investimentos norte-americanos naquele país, foi considerado "uma paulada" pelo Palácio do Planalto.

Da mesma forma, o governo esquerdista do Uruguai já deixou claro ao próprio Lula que não retirará a candidatura de Carlos Pérez del Castillo à direção-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Esperada pelo Brasil, a iniciativa dificultará a vitória do candidato brasileiro, o embaixador Luiz Felipe de Seixas Corrêa, em maio, e o ingresso do Uruguai no G-20 - o grupo de países que insiste em uma negociação mais profunda dos temas agrícolas na Rodada Doha da OMC.