Título: Brasil não precisa do FMI, diz Lula
Autor: Nicola Pamplona
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/02/2005, Economia, p. B4
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que o Brasil não precisa mais de acordos com o Fundo Monetário Internacional (FMI). Otimista, ele garantiu que o País crescerá 5% ou mais este ano, ao contrário das estimativas de crescimento em torno dos 3% feitas pelos mercados. Lula participou da solenidade de lançamento do pólo minero-siderúrgico de Corumbá (MS), investimento de US$ 2 bilhões que deve ser concluído até 2008. Segundo o presidente, o Brasil deve alcançar ainda em março a marca de US$ 100 bilhões em exportações. No passado, lembrou, o País precisava pegar dinheiro no fundo para cobrir seus déficits comerciais. "Agora nem precisamos mais fazer acordo com o FMI", disse, creditando, em parte, o sucesso das exportações às viagens internacionais feitas em seu mandato. "Não viajamos apenas para ganhar títulos." O atual acordo com o FMI se encerra em março.
Lula previu que 2005 será um "ano muito auspicioso" para o Brasil, que deve manter o ritmo de crescimento de 2004. "Este ano vamos crescer a 5% ou mais. Todas as previsões dizem que vai ser 3%, mas vai ser 5% ou mais", frisou. Ele citou o setor siderúrgico, que tem investimentos previstos em US$ 25 bilhões nos próximos cinco anos, como exemplo de aquecimento da economia. "Vamos duplicar nossa capacidade produtiva (na siderurgia) e isso vai acontecer também em outros setores".
Pela pesquisa semanal do Banco Central com instituições e entidades divulgada segunda-feira, a estimativa de mercado para o crescimento do PIB este ano é de 3,7%. Algumas instituições, contudo, apostam em crescimento maior, como o Instituto de Economia da UFRJ, que projeta avanço de 4% para 2005.
O Pólo de Corumbá vai garantir a produção de 3,6 milhões de toneladas de ferro-esponja e 600 mil toneladas de ferro-gusa, matérias-primas para o aço. Segundo a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff, o governo vai trabalhar para que as obras sejam iniciadas ainda em janeiro de 2006. O protocolo de intenções assinado ontem entre a mineradora anglo-australiana Rio Tinto e o governos federal e o de Mato Grosso do Sul estipulou um cronograma para o projeto.
Até junho, a empresa se compromete a terminar as análises técnica e econômica. Depois, o governo trabalha na concessão da licença ambiental e em melhorias da estrutura logística para escoar a produção. O ministério tem ainda de concluir negociações com a Bolívia a respeito do preço do gás natural importado, fundamental para o empreendimento.
O presidente disse que o projeto é benéfico à Bolívia e faz parte da política de integração latino-americana. Além do aumento das exportações de gás daquele país, uma das térmicas necessárias para as usinas ficará em solo boliviano. Corumbá também deve sediar o pólo gás-químico binacional, com unidades industriais nos dois países. "Queremos que a Bolívia se desenvolva como nós."
Dentro desta política, o governo prepara também uma comitiva para visitar a Colômbia, em busca de acordos de cooperação nos moldes dos assinados com a Venezuela. "Vamos mandar para lá a ministra Dilma com um grupo de ministros para garimpar oportunidades", informou. "Não queremos ser ricos com nossos vizinhos vivendo na miséria." Segundo ele, os brasileiros sempre viveram "contemplando o infinito". "O brasileiro ia à Europa sem passar pela África e ia para os Estados Unidos sem passar pelos países da América Latina."