Título: Eleição no Egito, entre esperança e desconfiança
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Fonte: O Estado de São Paulo, 01/03/2005, Internacional, p. A14

Políticos da oposição e analistas saudaram a proposta anunciada sábado pelo presidente egípcio, Hosni Mubarak, de emendar a Constituição para permitir eleições presidenciais diretas e multipartidárias este ano, como precursora de uma nova era política para o Egito, a mais populosa nação árabe. Os céticos, porém, preferem esperar pelos detalhes para ter certeza de que a eventual emenda à Constituição não crie apenas uma democracia de aparência, muito comum na região.

Os defensores da medida disseram que ela é o primeiro passo na revisão total da Constituição e responde tanto a exigências domésticas por mais democracia assim como a pressões do governo de George W. Bush. O anúncio também ocorre após históricas eleições no Iraque e nos territórios palestinos e às primeiras eleições municipais na Arábia Saudita, deixando a região borbulhando de expectativas por reformas políticas.

No Egito, Mohamed Kamal, professor de ciências políticas e membro de um comitê que assessora o partido governista, classificou a medida de uma grande decisão. "Estamos falando sobre a estrutura do sistema político no Egito", disse.

Outros analistas, entretanto, manifestaram suas dúvidas sobre a mudança, destacando que o Parlamento, dominado pelo Partido Democrático Nacional, planeja trabalhar cerca de duas semanas nos detalhes da emenda constitucional.

Outros países, como a Tunísia, permitem que alguns membros da oposição concorram, mas o presidente virtualmente controla toda a propaganda política e sempre conquista uma ampla maioria em cada eleição.

O Parlamento do Egito tem uma longa tradição de reformas muito limitadas, destacam os críticos, e pode anunciar regras para a candidatura que criem a aura de democracia, mas ao mesmo tempo impeçam uma mudança real.

Além disso, Mubarak apenas mencionou a emenda dos artigos da Constituição sobre como o presidente é escolhido, de número 76 e não 77, que garante mandatos ilimitados.

"Esse é um meio de melhorar sua imagem com os americanos e agradá-los com algumas mudanças formais", disse Ibrahim Eissa, colunista e analista político. "Mas, ao mesmo tempo, Mubarak mantém todas as outras atribuições inalteradas, como as leis de emergência, a prisão de opositores, o controle estatal da mídia e dos partido políticos. Isto é decepcionante."

Essam el-Eryan, líder da Irmandade Muçulmana, um grupo fundamentalista que é proscrito como partido, destacou que a emenda pode limitar a escolha de candidatos ao barrar os pretendentes que não são apoiados por um partido político legal.