Título: Sauditas se unem à pressão sobre Síria
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Fonte: O Estado de São Paulo, 04/03/2005, Internacional, p. A14
A Arábia Saudita, influente aliada dos EUA no Oriente Médio, pediu ontem que a Síria inicie rapidamente a retirada de suas tropas do Líbano, do contrário haverá perigo para as relações bilaterais. O presidente sírio, Bashar Assad, e o príncipe Abdala - herdeiro do trono e governante de fato do reino - mantiveram uma reunião ontem em Riad, para tratar da crise desencadeada no Líbano após o assassinato, no dia 14, do ex-primeiro-ministro libanês Rafic Hariri. Há fortes suspeitas no Líbano de envolvimento do governo sírio no atentado, embora nenhuma evidência tenha sido apresentada até agora. "A Síria tem de iniciar a retirada logo, senão as relações sírio-sauditas atravessarão dificuldades", disse Abdala a Assad, segundo relatou um alto funcionário saudita. A agência oficial síria, Sana, deu uma versão amena do encontro: "As conversações abordaram a próxima reunião de cúpula árabe e a situação do Líbano. As visões sobre o assunto foram idênticas", assinalou a Sana.
O bilionário Hariri mantinha relações pessoais com a família real da Arábia Saudita e tinha cidadania do país - onde fez sua fortuna. "Eles sabem o que deveriam fazer. Deveriam retirar-se imediatamente" disse outra fonte saudita. "Isso é o que foi dito a eles e é o que todo o mundo está dizendo."
Reunidos no Cairo para a preparação da cúpula da Liga Árabe, marcada para Argel, nos dias 22 e 23, chanceleres dos países membros não quiseram se juntar à crescente pressão sobre a Síria.
Os EUA, a ONU, e a União Européia exigem a retirada imediata dos cerca de 14 mil soldados sírios do Líbano. Além da Arábia Saudita, outra influente nação a unir-se nessa pressão, ontem, foi a Rússia. O chanceler russo, Serguei Lavrov, também pediu o fim da ingerência síria, mas foi comedido: Lavrov enfatizou que a Síria tem de cumprir a resolução aprovada em setembro pela ONU, exigindo a retirada das tropas, mas enfatizou que a saída tem de ser conduzida de modo a não pôr em perigo o frágil equilíbrio de forças no Líbano.
A questão provocou grave crise no Líbano: o primeiro-ministro pró-Síria, Omar Karami, renunciou na segunda-feira, sob pressão de cerca de 25 mil manifestantes. Ontem os deputados pró-Síria defenderam a formação de um governo de unidade nacional. A oposição, porém, exige a retirada imediata das tropas sírias como condição para negociar um novo governo.