Título: Desigualdade social no Brasil mostra sua face na internet
Autor: Renato Cruz
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/03/2005, Economia, p. B19

Mesmo com todo o discurso do governo federal a favor da inclusão digital - ou seja, do acesso da população às tecnologias da informação -, as estatísticas mostram que a desigualdade social e a má distribuição de renda refletem-se diretamente no uso da internet. Segundo números do Ibope Mídia, o Brasil é o país latino-americano com a maior diferença de acesso à internet entre ricos e pobres. "A exclusão digital é a faceta tecnológica da exclusão social", disse Marcelo Coutinho, diretor de Marketing do Ibope/NetRatings, que participou ontem da Telexpo, que termina hoje em São Paulo. "Quando se pensa na urgência da inclusão digital, vemos que estamos perdendo o bonde." A capacidade de usar computadores hoje é essencial. "As pessoas não conseguem mais serem frentistas ou caixas de supermercado sem algumas habilidades básicas", disse Ivan Moura Campos, presidente da Akwan e um dos pioneiros da internet brasileira. Comparando oito países, o Brasil ficou em segundo lugar entre os que têm uma parcela maior entre os 10% mais ricos que usam a rede mundial, com 82% de acesso, depois do Peru (85%). Acontece que são os peruanos de classe baixa, entre os 40% mais pobres, os que mais acessam a internet na região, com 38% de inclusão. Quando se olha a camada mais pobre, os brasileiros ficam em último lugar, com 10% de acesso, empatados com o México. Mas, diferentemente dos brasileiros, os mexicanos mais ricos aquisitivo também acessam pouco a rede mundial, com 58%.

Um dos motivos é o preço do computador. Coutinho comparou o valor de um micro básico em quatro países latino-americanos e o Brasil tem a máquina mais cara. Em relação à Argentina, o preço do PC mostrou-se 70% maior. Tomando por base de comparação o valor do micro sobre a renda média per capita, a situação brasileira é ainda pior. O preço do PC aqui equivale a 11,1% da renda, segundo dados de 2003 do Banco Mundial. Na Argentina, a 4,5%.

Mas o que está fazendo, por exemplo, o Peru, que tem 51% da população com acesso à internet, comparado a 32% de média latino-americana e aos 31% do Brasil? A estratégia deles foi criar pequenos centros comunitários de acesso. "O governo peruano criou a condição para surgirem telecentros domiciliares, em que uma casa em um bairro de baixa renda tem alguns computadores para acesso à internet", afirmou o diretor do Ibope/NetRatings.

Enquanto os peruanos resolvem o problema com pequenos centros comunitários, o governo brasileiro tem como um de seus programas principais o ambicioso Casas Brasil, de grandes centros que, além de computadores, têm estúdio de rádio e vídeo e salas com palco para show ou teatro. O orçamento prevê R$ 204 milhões para a criação de mil Casas Brasil, ou R$ 204 mil por unidade, quando o custo de 10 computadores, suficientes para um telecentro, é de somente R$ 12 mil.

Os números do Ibope Mídia mostram que somente 3% da classe D/E que consegue acessar à internet o faz em casa. Trinta e dois por cento usam lugares públicos de acesso, como telecentros e cibercafés. Apesar disso, outro grande programa de inclusão digital do governo é o PC Conectado, que irá oferecer micros de baixo custo, financiado em 24 vezes, para a população de menor renda. "O PC Conectado é um programa de inclusão digital para a classe média baixa", explicou Sérgio Amadeu da Silveira, diretor-presidente do Instituto Nacional de Tecnologia da Informação (ITI), ligado à Casa Civil. "Não é o que vai resolver o problema das classes D/E, que precisam de centros coletivos de acesso."