Título: Para Lessa, governança da Light 'é uma tragédia'
Autor: Adriana Chiarini
Fonte: O Estado de São Paulo, 05/03/2005, Economia, p. B9
O ex-presidente do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) Carlos Lessa acusou ontem a distribuidora de energia elétrica do Rio de Janeiro, a Light, de ter problemas de governança corporativa. "A Light é uma tragédia", afirmou, depois de prestar depoimento de quase quatro horas no Ministério Público sobre o caso da Eletropaulo (distribuidora de São Paulo), quando falava sobre problemas das privatizações. A Light informou, através de nota, que vai pedir explicações a Lessa. "Causaram surpresa as críticas e vamos interpelá-lo", diz o comunicado. Segundo Lessa, a dificuldade da Light em obter financiamento do BNDES só existiu por causa da linha administrativa e operacional da distribuidora. "Só se pode botar dinheiro em empresa com boa governança", frisou, acrescentando que, em conseqüência disso, "está caindo o padrão de operação da empresa". O ex-presidente do BNDES, porém, evitou falar em estatização.
"Com energia não se brinca. É um setor base da atividade econômica e social. Se alguém está operando mal, tem de cair de pau em cima dele, lançando mão de todos os procedimentos de que o poder público dispõe", disse.
PROCESSO
A Light tenta obter um empréstimo do BNDES desde a gestão de Lessa, para quitar parte das dívidas que tem com 17 bancos, no valor total de US$ 1,5 bilhão. No processo de negociação, a Light assumiu compromissos de reduzir gradualmente as perdas resultantes de furtos de energia, que, calcula-se, estava na época em em torno de 24% da energia fornecida. Pelas contas da Light, seria possível uma receita adicional em torno de R$ 25 milhões por ano para cada ponto porcentual de redução do furto.
O empréstimo chegou a ser aprovado, no valor de R$ 700 milhões, mas a liberação ficou condicionada a um acordo entre a distribuidora e seus credores, o que até agora não ocorreu. Além disso, a empresa contaria com um reajuste extra para equilibrar seu orçamento - mas na semana passada o Ministério da Fazenda negou o reajuste que já tinha sido autorizado pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel). Com isso, a negociação com os bancos voltou à estaca zero.
O diretor de Relações Institucionais da Light, Paulo Roberto Ribeiro Pinto, disse que a companhia vai renegociar as dívidas com os bancos nos próximos dez dias. A empresa tem até junho para apresentar os resultados desta negociação ao BNDES, para ser incluída no programa de governo de ajuda às distribuidoras de energia elétrica. Para o diretor, a negociação deve ser concluída a tempo, porque o reajuste não foi negado, mas adiado para novembro, mês do reajuste anual da Light. Ele estima que a distribuidora deixará de receber R$ 300 milhões no período.
No total, as dívidas da Light somam US$ 1,5 bilhão, dos quais cerca de US$ 400 milhões estão sendo capitalizados pela sócia majoritária da empresa, a francesa EDF.
A multinacional já havia feito um aporte de capital em 2003, de US$ 1 bilhão e ameaçou deixar a concessão caso houvesse necessidade de mais dinheiro - na época, fontes do mercado consideraram a possibilidade remota por causa de questões políticas que prendem a EDF ao comando da Light.