Título: Governo combaterá mais doenças
Autor: Adriana Dias Lopes
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/02/2005, Vida, p. A8

Diretor de Vigilância Epidemiológica diz que estão em estudo vacinas contra catapora e rotavírus O infectologista Carlos Magno Fortaleza, de 33 anos, é diretor da Vigilância Epidemiológica Estadual, cargo que ocupa há dois anos. As atribuições do médico não são poucas: inclui conhecer as doença que podem atingir o Estado, quantificar e analisar os fatores de risco e promover medidas de combate. A seguir, trechos da entrevista que deu ao Estado sobre epidemias e vacinas. Como é o atual nível de cobertura por vacinas no Estado de São Paulo?

Fica perto de 90%. Algumas vacinas, como a contra o sarampo, são aplicadas em mais de 100%. Isso ocorre porque outras pessoas vêm de outras regiões para se vacinar.

O senhor acha que é importante a criança ser também vacinada contra doenças que não estão previstas no calendário, como catapora e hepatite A?

Estou seguro de que o calendário vacinal do Programa Nacional de Imunizações (PNI) contempla as doenças imunopreveníveis mais relevantes do ponto de vista clínico e epidemiológico. O calendário tem sido atualizado freqüentemente, de acordo com avaliações de novas necessidades. No final dos anos 90, por exemplo, foram acrescentadas as vacinas contra hepatite B e Haemophilus influenzae do tipo B (um tipo de meningite). Em 2004, acrescentou-se uma dose adicional da tríplice viral (contra sarampo, caxumba e rubéola). Mas as vacinas que não fazem parte do calendário são seguras e conferem proteção adicional à população infantil. Não é essencial.

Existe a possibilidade de outras doenças entrarem no calendário oficial de vacinas?

Não há data definida, mas existe a possibilidade de introduzirmos a do rotavírus (doença que causa diarréia em crianças) e a da catapora. Isso ainda depende de questões técnicas. A de catapora já existe, mas não é fácil fabricá-la em grande escala. Em relação à de rotavírus, sua segurança ainda está sendo estudada.

Qual é o risco de uma criança que não é vacinada?

Ela representa um risco para outras pessoas. Vira foco da doença. Existe a chamada imunidade de rebanho. Cada pessoa vacinada protege outra. Cada pessoa não vacinada coloca outra em risco. Ou seja, quando você imuniza uma parte da população, está protegendo de certa forma a outra também.

Qual é a sua opinião sobre médicos que não recomendam vacinas em crianças?

Existe mesmo uma corrente da medicina não ocidental que defende isso, mas não dá pra compactuar com ela. A prova da importância das vacinas é que hoje não temos mais sarampo por conta delas. Pólio, idem. Os casos de meningite por Haemophilus só começaram a cair no final da década de 90, com a chegada da vacina. Até então, a incidência variava de 320 a 480 casos. Em 2000, tivemos 144 casos. Em 2001, 100. Em 2002, 70. Em 2004, foram apenas 39.

O que determina uma campanha de vacinação?

As campanhas servem, na verdade, para complementar o calendário. Por exemplo: 10% da população não responde às vacinas. Ou seja, essas pessoas não desenvolvem anticorpos suficientes para se proteger da doença. Isso é chamado de falha primária. É por isso que os reforços são importantes.

Dá para saber quem não responde à vacina?

Impossível. E é por isso que é fundamental todos aderirem às campanhas. E também não há problema algum se o organismo já produziu anticorpos suficientes e receber outra vacina.

Como se detecta uma epidemia?

Os profissionais de saúde são, por exemplo, obrigados por lei a avisar a Vigilância Epidemiológica sobre as doenças de notificação compulsória. No total, são 35. Entre elas, tuberculose, difteria, dengue, sarampo, meningite, rubéola, malária, leishmaniose e hantavirose.

Há outras formas de descobrir uma epidemia?

Temos uma área central de informações, com outras fontes de dados. Entre elas, o registro de atestados de óbitos, visitas a hospitais e dados da monitorização de sentinela. Essa monitorização é o seguinte: centros de saúde selecionados nos informam semanalmente quantas diarréias ou gripes foram analisadas. Cerca de 300 pessoas estão envolvidas nisso.

A maneira de controle depende, então, do tipo de doença?

Sim. Em relação à febre amarela, por exemplo, temos de ficar atentos à morte de macacos. A febre amarela urbana não existe mais no Brasil, desde a década de 40. Mas a silvestre, sim. E a silvestre acomete humanos e macacos. Quando somos informados da morte dos animais, por qualquer razão que seja, nos preparamos para fazer campanha de vacinação de febre amarela na região. Fizemos isso no carnaval de 2003. Vacinamos toda a região à margem paulista do Rio Grande, começando por Miguelópolis. Vacinamos de casa em casa. Foi uma campanha muito intensa. E nem tínhamos certeza da causa da morte dos macacos.

E como é o controle de doenças que já foram erradicadas?

Não temos a pólio no Brasil desde a década de 80. Sarampo, desde 2001 não aparece mais no Estado de São Paulo. Mas essas doenças podem a qualquer momento ser reintroduzidas porque ocorrem em lugares onde existe intensa relação com o Brasil. A África tem pólio. Já o sarampo corre livre no Japão e na Europa, especialmente na Itália. No caso dessas duas doenças, fazemos o que chamamos de vigilância negativa. Os municípios têm de mandar toda semana um documento para a Vigilância Epidemiológica, informando que não houve suspeita de sarampo ou de pólio. No caso da pólio, temos ainda funcionários que visitam grandes centros de neurologia do Estado para avaliar prontuários de doenças neurológicas com sintomas parecidos com os da pólio. É um pente fino no que poderia ter sido perdido pelos centros de saúde.

Como surgem novas doenças?

Podem aparecer a qualquer momento, por conta da relação do homem com o meio ambiente: novos hábitos alimentares, novos tipos de viagens. Para isso, temos um grupo de investigação. E isso pode ser simples, como também levar a verdadeiras operações de guerra. Por exemplo, a epidemia asiática de Sars. Lembro bem da data dos primeiros casos em uma província na China, em 2002.

A data da Sars coincidiu com a sua chegada à Vigilância, certo?

Sim. E eu sabia que São Paulo era uma porta de entrada. Temos a maior comunidade chinesa do País. Fizemos uma força-tarefa, em que tínhamos contato contínuo com agentes de aeroportos, setor hoteleiro, companhias aéreas e até em ONGs que trabalham com estrangeiros ilegais de origem chinesa. Percorri pessoalmente hotéis. Mobilizamos quartos de hospitais públicos de isolamento especial. Contávamos com um serviço 0800 (0800-555466, telefone que funciona 24 horas e recebe atendimento de médicos). Todos os casos suspeitos vieram para nós. Conseguimos fazer com que o tempo entre o início dos sintomas suspeitos e a notificação fosse de apenas 2 dias.

Foram muitas notificações?

No total, foram 37 casos, sendo que 3 preencheram o critério de suspeita e 1 foi de fato considerado suspeito. Nenhum se concretizou.

Quais as doenças que hoje mais desafiam a vigilância?

A tuberculose e a leishmaniose visceral, doença que causa aumento do baço e do fígado. A leishmaniose acomete muito mais o cão que o ser humano. Na maioria das vezes, o mosquito pica o cão e leva a doença para o ser humano. Essa doença entrou no Estado pelo oeste, nas cidades de Andradina e Araçatuba, e hoje chegou a Bauru. Primeiro acomete os cães. Quando ela acomete o ser humano, muitos cães já foram atingidos. Não existe tratamento efetivo para o cão. Por isso, devemos eliminar o animal doente. E o problema é que é muito difícil convencer a população em geral, as entidades civis e as sociedades protetoras dos animais disso. O Código Sanitário nos permite matá-los. Mas eventualmente temos de esclarecer o assunto ao Judiciário local.

A leishmaniose pode chegar à capital?

Sim. O cão é um animal urbano, ele migra de cidade para cidade. O total de casos tem crescido muito. Em 1999, foram 17 no Estado. Em 2004, foram 122. A letalidade é de 10%.

E a tuberculose? Ela é uma doença muito antiga.

O grande desafio é fazer as pessoas aderirem ao tratamento até o fim. A hepatite C, doença para a qual também não há vacina, é um outro desafio.