Título: A indústria vai à luta
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Fonte: O Estado de São Paulo, 08/03/2005, Editorial, p. A3
O presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, assinará quinta-feira um memorando de entendimento com o presidente da Associação Nacional das Indústrias dos Estados Unidos, John Engler, para várias formas de cooperação. Um dos objetivos comuns é impulsionar as negociações comerciais que envolvem brasileiros e americanos, a da Área de Livre Comércio das Américas (Alca) e a da Rodada Doha, que mobiliza quase 150 países de todo o mundo. Essa iniciativa é mais um sinal de que o empresariado brasileiro - ou pelo menos a sua parte mais dinâmica - decidiu assumir um papel mais importante na discussão de acordos para maior integração na economia global.
Empresários da indústria e do agronegócio deverão participar, proximamente, de várias missões aos Estados Unidos, com ou sem a presença de autoridades. Líderes do setor privado têm mostrado insatisfação com a lentidão das negociações conduzidas pelo governo brasileiro, especialmente no caso da Alca e na busca de um acordo entre o Mercosul e a União Européia.
Essas duas negociações empacaram no ano passado, em parte por causa de obstáculos criados pelo Brasil e por parceiros do Mercosul. Americanos e europeus também foram responsáveis pelos impasses, mas a diplomacia econômica do Mercosul, especialmente pela posição defensiva dos governos brasileiro e argentino, deixou de aproveitar oportunidades de avanço.
O agronegócio tem sido o setor brasileiro mais ativo nas discussões comerciais. O governo tem negociado como se a liberalização do comércio agrícola fosse o objetivo mais importante dos acordos em debate. Quando os diplomatas brasileiros falam do acesso a mercados como objetivo central, quase sempre se referem às exportações do agronegócio. Pode-se alegar que haja um mal-entendido, mas são os negociadores oficiais os primeiros a alimentar essa interpretação.
Com a questão agrícola posta no centro das principais negociações, os industriais tenderam a manter uma atitude geralmente discreta, como se esperassem a solução daquele problema para entrar em cena. Diplomatas brasileiros deram a entender, mais de uma vez, que os novos acordos comerciais poderão proporcionar benefícios muito limitados à exportação da indústria, já que as tarifas de importação no Primeiro Mundo são geralmente baixas e as principais distorções ocorrem no comércio agropecuário.
Exportadores industriais brasileiros sabem que isso não é verdade e que a conquista de espaço nos principais mercados não depende apenas de um empenho maior da indústria - embora o setor, inegavelmente, explore os grandes mercados menos do que poderia, se fosse mais ativo na identificação de oportunidades. A novidade importante é que uma parte do empresariado percebeu que a integração internacional é inevitável e que, se não agirem, até espaços já conquistados serão perdidos para novos concorrentes, como a China, o Paquistão, a Índia e vários países recém-admitidos na União Européia.
Esses empresários parecem ter percebido que a mera posição defensiva não servirá aos seus interesses - nem aos do País. Os primeiros sinais dessa mudança apareceram no final de 2003, quando representantes da Coalizão Empresarial Brasileira e da Fiesp assumiram uma atitude mais afirmativa que a dos diplomatas, na conferência ministerial da Alca em Miami. No ano passado, líderes empresariais do agronegócio e da indústria cobraram do governo, em dois manifestos, maior ousadia nas principais negociações.
Faltou articulação ao setor industrial, no entanto, quando se tratou, nos meses seguintes, da troca de ofertas com a União Européia. Os argentinos podem ter sido os mais defensivos, mas também do lado brasileiro prevaleceram os setores mais avessos à redução de barreiras.
O resultado é que o Itamaraty vem cuidando, nas negociações, principalmente dos interesses dos segmentos mais protecionistas. Mantida essa orientação, os setores mais competitivos da indústria brasileira serão sacrificados. Esse caminho não serve. É preciso menos timidez para buscar soluções novas ou o País será atropelado pelos mais audaciosos no mercado internacional. Essa parece a descoberta mais importante dos líderes industriais brasileiros.