Título: Congresso da Bolívia decide hoje destino de presidente demissionário
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Fonte: O Estado de São Paulo, 08/03/2005, Internacional, p. A20
A renúncia do presidente boliviano, Carlos Mesa - formalizada ontem com a apresentação de sua carta de demissão ao Congresso -, aprofundou a divisão do país. Líderes da oposição acusam o presidente de tentar uma manobra e partidários do governo manifestam em bloco apoio a ele. Na mensagem aos congressistas, Mesa disse não poder "seguir governando assediado por um bloqueio nacional que estrangula o país, ou ante ultimatos, greves, ameaças e ações que não fazem outra coisa se não destruir o aparato produtivo, a confiança e o futuro". Na carta-renúncia, porém, ele deixa aberta a possibilidade de recuar da decisão. Pela Constituição boliviana, cabe ao Congresso aceitar ou não a demissão do presidente, que ontem continuava governando. O Congresso marcou para hoje a sessão de deliberação sobre a renúncia. Caso seja aceita, o sucessor de Mesa - que assumiu o poder há 17 meses, após a renúncia de Gonzalo Sánchez de Lozada - será o presidente do Congresso, senador Hormando Vaca Díez, do Movimento de Esquerda Revolucionária (MIR), um político amplamente rejeitado pela população, segundo analistas locais. Mas ontem mesmo Vaca deu a entender que o pedido de renúncia seria rejeitado pela maioria dos 157 membros da Casa - o que levaria as forças políticas do país a um pacto de governabilidade, isolando a oposição radical.
Já no domingo à noite, quando o presidente anunciou a intenção de renunciar, milhares de partidários de Mesa começaram a se concentrar na frente da sede do governo para pedir sua permanência no poder. As Forças Armadas emitiram ontem uma nota afirmando reconhecer apenas Mesa "como presidente constitucional do país", advertindo que não aceitarão "nenhuma outra opção que não seja a democrática". Jornalista e escritor de 51 anos e político independente, Mesa conta com 60% de aprovação popular, segundo as últimas pesquisas.
Mesa recebeu também o apoio implícito de líderes sul-americanos como o presidente argentino, Nestor Kirchner, o peruano Alejandro Toledo e os vice-chanceleres de 12 países da Comunidade Sul-Americana de Nações (CSN) - que estavam reunidos ontem em Lima.
"Mesa chantageia o povo, pois ninguém pediu sua saída". declarou Evo Morales, um dos principais líderes da oposição, denunciando uma "manobra para ganhar apoio. Morales - que exige a aprovação de uma lei de hidrocarbonetos que afetaria as relações do país, por exemplo, com a Petrobrás - pediu que o Congresso rejeite a renúncia, afirmando que Mesa "tem de cumprir seu mandato até o fim", em 2007.
Desde a semana passada, outro líder opositor, Abel Mamani, promove um bloqueio de estradas para exigir a saída do país de uma empresa de distribuição de água de capital francês. O bloqueio impede o tráfego entre La Paz e o sul e leste do país. Partidários de Mesa enfrentaram opositores em El Alto, perto de La Paz.