Título: Disputa entre GM e Fiat pode ir à Justiça
Autor: Cleide Silva
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/02/2005, Economia, p. B13

A Fiat e a General Motors não chegaram a um acordo sobre a possibilidade de o grupo italiano forçar a montadora americana a comprar sua deficitária unidade automotiva. Ambas as empresas mantiveram as posições sobre a opção de venda que as levaram para a tentativa de conciliação. Elas negociavam desde meados de dezembro. Agora, o caso pode ir à Justiça. O problema gira em torno da aliança assinada em 2000 entre as duas empresas que, entre outras coisas, dava ao grupo italiano a possibilidade de vender a totalidade de seu negócio de automóveis ao gigante americano entre os dias 24 de janeiro de 2005 e 24 de julho de 2010. A GM adquiriu 20% das ações da Fiat Automóveis, divisão que responde por 43% do faturamento do Grupo Fiat. A GM, no entanto, afirma que a Fiat inviabilizou o negócio ao promover um programa de recapitalização na Fiat Auto, em 2003, de 5 bilhões, cortando para 10% a participação da empresa americana, e ao vender 51% da financeira Fidis a um grupo de bancos. "Nossa posição não mudou desde que estas transações começaram. Nós não mudamos um ponto sequer", afirmou o porta-voz da GM.

Já a Fiat reafirma sua visão de que a opção de venda é válida, executável de acordo com seus termos e que o contrato é um importante ativo para o grupo. "A opção é exercível a partir de hoje (ontem)", informou o grupo italiano em uma nota. A empresa reforçou ainda que o prazo para a opção vai até julho de 2010.

A falta de um acordo desapontou os investidores, que esperavam que a GM pagasse à Fiat cerca de 1,8 bilhão para que o grupo italiano desistisse da opção. A possibilidade desse pagamento não é confirmada por nenhuma das partes, que afirmam tratar-se de especulação de investidores.

Os títulos da Fiat desabaram ontem na Bolsa de Milão e fecharam em queda de 5,39% devido ao impasse sobre o futuro do acordo.

A Fiat não quis comentar quando o presidente-executivo da companhia, Sergio Marchionne, deverá iniciar o processo de venda da montadora. Anteriormente, o executivo afirmou que poderia exercer a opção para forçar um acordo rápido com a GM. Analistas afirmam que a Fiat tem pouco tempo a seu favor, já que a Fiat Auto está deficitária, suas vendas continuam em queda e a montadora tem 8 bilhões de dívidas.

Caso a Fiat decida exercer a opção de venda, as duas companhias terão 10 dias para um acordo em relação ao preço. Se não chegarem a um entendimento, quatro bancos de investimento terão 20 dias para avaliar a empresa. Mas, muitos investidores e analistas acreditam que as duas companhias irão concordar em anular a oferta de venda em troca de concessões para a Fiat, que podem variar de 1 bilhão a 3 bilhões.

O acordo de 2000 criou também duas joint ventures, uma para produção de motores e outra para compras conjuntas. Com essas atividades, cada uma das acionistas economiza US$ 1 bilhão ao ano.

NO BRASIL

Em meio a esse impasse, o presidente mundial da GM, Richard Wagoner, chegou ontem em São Paulo e manteve reunião com o governador Geraldo Alckmin. Ele informou sobre novos investimentos para o Estado, que serão detalhados hoje, em sua visita à filial de São Caetano, no ABC paulista. Outro motivo da visita é participar de comemorações dos 80 anos da marca no País, completados em janeiro.

Wagoner, que já presidiu a subsidiária brasileira, a segunda maior operação do grupo fora dos Estados Unidos, também quer prestigiar a filial por ter alcançado em 2004, pela primeira vez em sua história, a liderança em vendas no mercado nacional. A empresa vendeu 364,2 mil veículos e garantiu participação de 23,1% do mercado. Apesar da liderança nas vendas, a GM do Brasil registrou prejuízos financeiros pelo sétimo ano seguido.

A Fiat, a segunda maior montadora do País, encerrou 2004 com 22,1% de participação no mercado ao vender 349 mil veículos. A Fiat brasileira é a maior empresa do grupo fora da Itália e, com exceção do ano passado, vem registrando lucros no País. A empresa ainda não divulgou seu balanço, mas acredita que conseguiu pequeno resultado positivo em 2004.

O Grupo Fiat do Brasil, formado por 18 empresas que faturam R$ 15 bilhões ao ano, está sob o comando de Cledorvino Belini desde terça-feira. O executivo, que já era responsável pela unidade de automóveis, agora acumula os dois cargos.

BALANÇO

A matriz italiana da Fiat vai divulgar seu balanço de 2004 no dia 28. Marchionne já antecipou que a companhia, formada por 18 empresas, cumpriu sua meta de fechar o exercício com equilíbrio financeiro.

Enquanto negocia a saída para o acordo com a GM, a Fiat mantém seu programa de lançamentos. Ontem, a marca mostrou na Itália o Alfa Romeo Brera, novo esportivo que será apresentado no salão de Genebra em março.