Título: Cobrança de subornos é prática comum na Ucrânia
Autor: Mark Franchetti
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/02/2005, Internacional, p. A19
O último ato da Revolução Laranja teve lugar na sexta-feira no Parlamento da Ucrânia, com a nomeação de Yulia Tymochenko para o cargo de primeiro-ministro, com o endosso de quase todos os parlamentares presentes. Dos 475 membros da Casa, 373 votaram a favor. Ninguém foi contra e apenas três se abstiveram. Foi um êxito inesperado e importante para a equipe reformista do presidente Viktor Yushchenko. Em um ambiente de euforia, Yulia apresentou os membros de seu governo, indicados pelo presidente Yushchenko, e os nomes de 25 governadores.
"Sei que a sociedade espera um milagre, milagre no restabelecimento da justiça. Vamos pôr este milagre em marcha. Estou convencida disso", disse ela, prometendo pôr fim à ampla corrupção na Ucrânia, onde a prática da cobrança de subornos está enraizada nas instituições do Estado. Ela mesma é acusada de envolvimento em fraudes (ler ao lado).
A nova primeira-ministra disse ainda que não tem intenção de privatizar todas as estatais, mas se comprometeu a tornar as empresas públicas mais eficientes e a lutar contra o contrabando.
Horas antes, ao apresentar Yulia ao Parlamento, o presidente Yushchenko afirmou que a corrupção é o problema n.º 1 do país e é por isso que será o primeiro a ser atacado.
Yushchenko comentou que compreendia que para a maioria dos ucranianos um governo honesto, depois de dez anos de escândalos sob a presidência de Leonid Kuchma, parece algo fantasioso. "Eu não aceitarei subornos, não roubarei. E exijo o mesmo dos membros do meu governo. Meu governo não aceitará suborno. Não entregará nenhum dinheiro ao Parlamento para obter a aprovação de leis."
Já a primeira-ministra disse que a Rússia é o primeiro e mais importante parceiro da Ucrânia, mas enfatizou que o caminho agora é o da mudança em direção à Europa Ocidental. "Temos de traçar e aprovar a estratégia nacional de integração européia para criar as bases para nos tornarmos um membro pleno da União Européia", declarou ela.
O presidente recém empossado já realizou pelo exterior um tour que começou pela Rússia e incluiu Bruxelas, a sede da União Européia e da Organização do Tratado do Atlântico Norte. Na viagem, ele comentou que sua meta é iniciar com a UE até 2007 negociações de adesão da Ucrânia ao bloco.
A carismática Yulia é popular entre os nacionalistas, mas vista com desconfiança pelo leste ucraniano, de forte influência russa, e por Moscou. Na Rússia, ela é acusada de ter subornado militares russos em meados dos anos 90. Depois que Yulia se recusou a depor no processo, a Justiça russa emitiu uma ordem de prisão conta ela, que ainda está em vigor.