Título: Princesa do gás quer limpar seu nome
Autor: Mark Franchetti
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/02/2005, Internacional, p. A19
A nova primeira-ministra da Ucrânia, Yulia Timoshenko, iniciou uma batalha para livrar seu marido foragido de acusações de corrupção e punir os aliados de seus acusadores no regime deposto na Revolução Laranja de Kiev. Ela protestou perante a Suprema Corte sobre um caso criminal aberto por aliados do ex-presidente Leonid Kuchma contra Alexander Timoshenko, seu marido, atualmente escondido no exterior.
A ação é o primeiro passo do que provavelmente será uma campanha apaixonada da impetuosa dirigente contra Kuchma e seus amigos para vingar as tentativas de prendê-la, assim como a seu marido e seu sogro, sob acusações de fraude.
MOEDOR DE CARNE
"Meu marido está morando num local não revelado no exterior", disse Yulia, a mulher mais rica da Ucrânia, cuja nomeação para primeira-ministra pelo recém-eleito presidente Viktor Yushchenko foi confirmada pelo Parlamento na semana passada. "Eu não arriscaria jogá-lo num novo 'moedor de carne' antes de o tribunal absolver totalmente nossa família."
Yulia, de 44 anos, tenta anular as acusações desde quando rompeu com Kuchma, que a demitiu do cargo de vice-primeira-ministra de Energia em 2001.
Inimigos no lado de Kuchma acusaram os Timoshenko de desviar fundos de lucrativas importações de gás quando o casal dirigia a United Energy Systems, empresa privada que detinha o monopólio das importações de gás de ex-países soviéticos, entre eles a Rússia.
Acredita-se que a riqueza de Yulia tenha vindo desses contratos, o que lhe valeu o apelido de "Princesa do gás".
SUBORNOS
Ela ficou presa por um breve período, mas os Timoshenko, cuja filha Yevgenia, de 19 anos, está estudando na Grã-Bretanha, sempre consideraram as acusações como politicamente motivadas.
Num caso separado, a Rússia, que apoiou Viktor Yanukovich, o oponente de Yushchenko na eleição presidencial do ano passado, acusou Timoshenko de subornar funcionários militares russos.
Ela negou qualquer irregularidade e se recusou a ir a Moscou para prestar depoimento. "Tenho uma espingarda de caça formalmente registrada e abrirei fogo contra qualquer um que tentar chegar perto", disse ela.
Yulia, nascida numa família pobre, tornou-se o rosto populista da Revolução Laranja - referência à cor da campanha da oposição - depois de unir forças com Yushchenko.
Ela ajudou a levar centenas de milhares de simpatizantes às ruas de Kiev depois de uma primeira eleição presidencial ter sido fraudada. Yanukovich, o candidato de Kuchma, foi derrotado na segunda eleição.
Diferentemente do mais moderado Yushchenko, que foi envenenado e desfigurado durante a campanha eleitoral, Yulia pediu no passado a prisão de Kuchma e de alguns de seus aliados.
Ela o acusou de corrupção e pediu seu indiciamento pelo assassinato de Georgy Gongadze, jornalista cujo corpo decapitado foi encontrado num bosque na periferia de Kiev em 2000, depois de ele ter tentado investigar acusações de corrupção envolvendo Kuchma.
Yulia também pediu a investigação de uma série de acordos de privatização da era Kuchma. No topo de sua lista está a Kryvorizhstal, a maior siderúrgica do país, vendida no ano passado a um consórcio apoiado por Viktor Pinchuk, genro de Kuchma, e Rinat Akhmetov, o homem mais rico da Ucrânia, próximo do antigo regime.
Seu lance de US$ 811 milhões foi vitorioso apesar de ser mais baixo que os outros. O mais alto veio de um consórcio americano e britânico que ofereceu US$ 1,5 bilhão e prometeu investir US$ 1,2 bilhão na fábrica.
"A prisão foi muito difícil para ela", disse um aliado da nova primeira-ministra ucraniana. "Ela começou a sonhar com a vingança contra os responsáveis por jogá-la numa cela. Agora ela não tem medo de nada."