Título: Juro elevado e real forte inibem projetos maiores
Autor: Márcia De Chiara
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/02/2005, Economia, p. B1

Consultorias, empresas especializadas em vender equipamentos de automação e representantes da própria indústria atestam o maior interesse das empresas do setor para ampliar a capacidade de produção sem investimentos de peso, como erguer uma nova planta. O juro elevado e em trajetória de alta, somado ao dólar depreciado, são fatores que contribuem para que os investimentos sejam modestos. "Ampliar a capacidade de produção com pequenos ajustes é o primeiro passo para quem tem dúvidas em relação ao futuro", diz Milton da Vila, sócio principal da área de consultoria empresarial da Deloitte Touche Tohmatsu. Ele diz que o momento atual é de cautela, especialmente depois que o governo voltou a subir os juros e a indicar novas altas. "Hoje ninguém colocou o pé no freio nem no acelerador", pondera.

Enquanto isso, não param de crescer investimentos considerados pelos especialistas como marginais, frutos de pequenos ajustes em máquinas e processos. "O número de projetos de ampliação da produção por meio de novos processos e tecnologias cresceu 80% em 2004 ante o ano anterior na nossa consultoria", conta Vila. Ele ressalta que 2004 foi o melhor ano para a empresa desde 2000 neste tipo de prestação de serviço.

A Asea Brown Boveri (ABB), especializada na venda de equipamentos de energia e automação, registrou aumento de 30% no faturamento em dólar nesse segmento nos últimos 12 meses. "Notamos que, a partir do ano passado, com a elevação dos juros, ficou bastante evidente que grandes projetos de investimentos foram congelados em razão das expectativas. Então os empresários procuraram fazer o que dá para fazer, que, neste caso, são ajustes de maturação rápida", conta o diretor superintendente de Tecnologias de Automação da ABB, Ricardo Hirschbruch.

Segundo ele, os pequenos investimentos, de US$ 5 milhões a US$ 10 milhões, proporcionam aumentos de produção entre 5% e 15%. "Os ganhos de qualidade advindos desse processo permitem acessar mercados mais sofisticados e o prazo de maturação dos projetos varia de 6 a 10 meses", diz o executivo.

Hirschbruch ressalta que a maior procura pela automação vem de empresas exportadoras de minério, aço e celulose, cujos preços tiveram forte elevação no ano passado. "Temos fornecido equipamentos de automação e acionamentos elétricos para a Companhia Vale do Rio Doce, ampliamos a capacidade dos laminadores de aço inox da Acesita e fornecemos acionamentos elétricos de uma máquina de papel para a Votorantim Papel e Celulose." Ele conta também que a empresa reformou robôs e reconfigurou a linha de produção da Ford em Camaçari (BA).

No caso da indústria automobilística, Hirschbruch diz que há ociosidade no setor, mas as fábricas de autopeças estão no gargalo por causa das exportações, que consomem 40% da produção. No segmento de autopeças, ele conta que tem uma série de projetos engatilhados para aumentar a capacidade de produção com os equipamentos existentes, adequando a oferta à maior demanda.

INDICADORES

Os indicadores recentes mostram que o nível de utilização de capacidade instalada da indústria paulista caiu em dezembro para 79,7%, ante 82,5% em novembro, refletindo um movimento sazonal, segundo dados da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp). Em dezembro de 2003, estava em 76,5%.

Sondagem Conjuntural da Indústria de Transformação da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostra que em janeiro o uso da capacidade instalada da indústria atingiu 83,6%, com um acréscimo de 2,8 pontos porcentuais em relação a igual período do ano passado. Esse resultado foi a maior marca para o período desde 1987 (84%).

De acordo com os técnicos da FGV, com ajuste sazonal, o nível atual de uso da capacidade seria de 84,6%, um pouco inferior a 85,1% de outubro de 2004, mas, mesmo assim, o segundo maior desde abril de 1995 (85,4%).

Na avaliação do diretor do Departamento de Pesquisas Econômicas da Fiesp, Paulo Francini, não há gargalos na produção. "Não nos apavora o nível de utilização das fábricas. Não achamos que esse seja motivo para uma escalada dos juros", diz o empresário, apontando a alta da taxa básica promovida pelo Banco Central nos últimos meses para segurar a inflação.

Segundo Francini, a estrutura industrial tem mecanismos e meios de adequar a produção à demanda. Entre esses meios ele cita o aumento do número de fornecedores, de importações, de hora extra e a compra de máquinas. "A indústria é muito dinâmica e não vai ficar parada esperando o dia em que não vai pode atender à demanda por seus produtos."