Título: Na pauta paralela, Supertucano e AMX
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/02/2005, Nacional, p. A6

O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, quer comprar de 12 a 20 aviões de ataque leve Supertucano, da Embraer. Na medida do pacote escolhido, pagará por isso entre US$ 110 milhões e US$ 180 milhões. Na agenda paralela do encontro com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, amanhã, em Caracas, entra a retomada da negociação de 12 caças bombardeiros AMX-T. O valor da encomenda pode chegar a US$ 260 milhões. O Ministério das Relações Exteriores do Brasil admitiu em nota oficial a expectativa da venda. Em Caracas, o ministro da Defesa, Jorge Garcia Carnero, limitou-se a confirmar "consultas, conversas e interesses".

A transação não é bem vista pelo governo dos Estados Unidos. O embaixador americano no Brasil, John Danilovich, disse na semana passada ao jornal Valor Econômico que considera a agenda de Chávez "muito clara" quanto a "sua revolução bolivariana". Para Danilovich "isso é uma questão de preocupação não só para o Hemisfério Sul e para o Brasil, mas para outros países na fronteira com a Venezuela e para os EUA".

O fornecimento dos jatos foi anunciado há pouco mais de dois anos, mas a operação não foi formalizada. A crise política que ameaçou Chávez em 2003 adiou a assinatura do contrato. A dificuldade em obter linha de crédito internacional ao longo de 2004 congelou o processo.

Os recursos acumulados nos últimos 13 meses de alta nos preços do petróleo - que saiu de um patamar de US$ 27 por barril, chegou a US$ 55 e se mantém em torno de US$ 40 - estão permitindo os investimentos em defesa.

Há mais. O governo venezuelano está ajustando a compra na Rússia de 50 supersônicos MíG-29SMT, a versão mais avançada do caça. Preço: US$ 5 bilhões. Há dois meses, Chávez e o presidente russo, Vladimir Putin, assinaram em Moscou um acordo de cooperação militar. Embora tenha dado início ao entendimento para incorporação da impressionante frota de aeronaves de ataque, o primeiro resultado prático do pacto Chávez-Putin foi a aquisição de 41 helicópteros de combate e transporte Mi-35 pesadamente armados. Na mesma solicitação entram 100 mil fuzis automáticos Kalashnikov Ak-47 e equipamentos de tecnologia avançada para os times de operações especiais da Brigada Aerotransportada da qual o próprio Chávez, tenente-coronel da reserva, é ex-integrante.

ESTAÇÕES

A Venezuela mantém consultas abertas na Áustria com vistas a canhões de campanha, na Inglaterra quanto a blindados leves, na Suíça e na Bélgica envolvendo sistemas eletrônicos. Já em fase de implantação e início de operações há uma rede de radares vindos da China ou da Ucrânia. As estações, instaladas ao longo dos 2.219 quilômetros de fronteira com a Colômbia e 1.207 quilômetros de limites com o Brasil, seriam destinadas à vigilância ambiental. Mas as especificações do sistema indicam claramente o emprego militar. A indústria brasileira de materiais de defesa participa do empreendimento por meio da Atech Tecnologias Críticas, responsável pelo conteúdo da rede. A mesma empresa cuida do desenvolvimento do software do Sistema de Vigilância da Amazônia (Sivam).

O Exército e o Corpo de Fuzileiros Navais venezuelanos querem modernizar 60 blindados sobre rodas Urutu e Cascavel, brasileiros, fabricados pela extinta Engesa nos anos 80. Não é uma operação especialmente cara, mas pode render perto de US$ 20 milhões.

A aviação de Caracas utiliza 20 Tucanos do modelo antigo. O Supertucano tem eletrônica de última geração e carrega 1,15 tonelada de armas. O jato subsônico AMX-T pode fazer ataques estratégicos de longa distância com bombas guiadas.