Título: Dirceu recuperou prestígio, mas não o poder de antes
Autor: Vannildo Mendes
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/02/2005, Nacional, p. A8
Um ano depois do escândalo chamado Waldomiro Diniz, o chefe da Casa Civil, José Dirceu de Oliveira e Silva, não é mais conhecido como "primeiro-ministro". Conseguiu, porém, recuperar prestígio e, a pedido do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, procura manter distância protocolar da Faixa de Gaza. "Sou um facilitador, não um complicador", diz ele. A Faixa de Gaza é o sugestivo nome com o qual os próprios petistas batizaram o território emoldurado por um "jardim de inverno", no quarto andar do Planalto, que separa o gabinete de Dirceu da sala ocupada pelo ministro da Coordenação Política, Aldo Rebelo. A disputa entre os dois atingiu tal nível de intensidade na escala palaciana que, no ano passado, Dirceu chegou a telefonar para o celular de um político recém-saído do gabinete de Aldo.
"Como você vai embora assim, sem falar comigo?", perguntou ele, "pescando" o interlocutor do desafeto, desta vez para o seu sofá.
Dirceu, na prática, monitorava as ações de Aldo, que herdou a fatia mais atraente da Casa Civil poucos dias antes de estourar o caso Waldomiro. Nunca se conformou com a divisão de seu feudo, mas tudo piorou depois que Waldomiro, então subchefe de Assuntos Parlamentares da Casa Civil, foi flagrado extorquindo um empresário do jogo do bicho, numa gravação de 2002. Dirceu caiu em depressão e os inimigos aproveitaram para bombardeá-lo.
Trinta e dois dias antes de completar 58 anos, o chefe da Casa Civil viveu, literalmente, um período de inferno astral. O caso Waldomiro estourou em fevereiro do ano passado, ofuscando a festa de 24 anos do PT. Dirceu fez aniversário em março. "Foi o pior ano da minha vida", admitiu ele, no fim de 2004, em entrevista à revista Época, que descobriu a fita de vídeo na qual Waldomiro aparece pedindo propina.
Meses depois, sempre em conversas reservadas, Dirceu ainda mostrava inconformismo. Dizia que Waldomiro traíra sua confiança. A mais de dois interlocutores do PT, partido que presidiu de 1995 a 2002, afirmou que sairia do governo. "Vou recomeçar minha vida. Não nasci ministro", insistia. Os amigos contam que ele chegava a chorar quando se referia ao escândalo.
MERGULHO
A recuperação só veio depois de muita cobrança de Lula. O presidente pediu a Dirceu que mergulhasse "de cabeça" na gerência do governo. Não foi fácil. Disciplinado, o ministro assumiu a tarefa, mas até hoje gostaria de retomar a articulação política, a cargo de Aldo. "Lula quer fazer do Zé o monstro da gestão, mas ele não funciona sem o coração político", observa um dirigente do PT.
No meio da guerra, Aldo selou uma aliança estratégica com o ministro da Fazenda, Antônio Palocci Filho, atitude que irritou ainda mais Dirceu. Dentro do governo, o chefe da Casa Civil é um dos mais ácidos críticos da ortodoxia econômica e das altas taxas de juros, que, no seu diagnóstico, criaram fortes amarras para o desenvolvimento. "O País não é só política monetária e fiscal", afirma. "Precisamos ver a floresta, que tem política industrial e tecnológica, tem investimentos em infra-estrutura."
Em novembro, Lula garantiu a Dirceu e Aldo que os dois ficarão onde estão no governo. Apesar da pressão do PT, que continua de olho na cadeira ocupada pelo comunista Aldo - um deputado licenciado do PC do B -, o presidente promete não ceder aos apelos na reforma ministerial. Nem mesmo para encaixar o petista João Paulo Cunha, que deixa de comandar a Câmara amanhã.
Para o público externo, Dirceu e Aldo assinaram o acordo de paz depois da conversa com Lula. A guerra fria, porém, continua. No fim do ano passado, Dirceu chegou a marcar uma reunião secreta com líderes partidários no Senado, na tentativa de conquistar apoio para o projeto que instituía as Parcerias Público-Privadas (PPPs). Descoberto por Aldo, a quem caberia a tarefa de costurar o acordo para a votação, cancelou o encontro.