Título: Nonô, o número 2, ataca o governo e assusta o PT
Autor: Cida Fontes
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/03/2005, Nacional, p. A12

Deputado substituiu Severino na votação da Biossegurança BRASÍLIA - Com a língua afiada de quem domina a gramática e a tribuna, conhece o regimento como poucos e exercita o bom humor com críticas impiedosas ao governo, o deputado José Thomaz Nonô (PFL-AL), 57 anos e 23 de Câmara, promotor de Justiça licenciado, deixou os petistas preocupados ao ser eleito primeiro vice-presidente da Câmara. Na quarta-feira, quando o presidente da Casa, Severino Cavalcanti (PP-PE), socorreu-se dele para comandar a polêmica votação do projeto de Lei da Biossegurança, Nonô surpreendeu os governistas. "Não votei em você não, mas sou devedora. Nunca vi uma condução tão correta", disse a deputada Telma de Souza (PT-SP).

Embora tenha sido bem votado na esquerda do PT e no PC do B, Nonô teve de enfrentar a oposição aberta do líder do governo, deputado Professor Luizinho (PT-SP) para sair vice de Severino. E considera um erro Luizinho ter trabalhado "pesadamente" contra sua eleição.

Primeiro presidente da Comissão de Ética da Câmara, que ajudou a criar, Nonô esteve no comando da Comissão de Constituição e Justiça no processo contra os chamados "anões" do Orçamento.

Nem nos elogios Nonô consegue fugir à ponta de ironia que caracteriza seu estilo. "Sou admirador de Severino. Acho até que ele e o presidente Lula são parecidos. Ambos são self-made men e saíram dos grotões para o brilho nacional."

O sr. votou em Severino Cavalcanti para presidir a Câmara?

O voto é secreto.

Muitos votaram em Severino por vingança ao PT e ao governo. Essa foi a tendência do voto no sr.? A eleição da Câmara foi controversa, mas o surpreendente foi o PT se dividir. O PT, na realidade não foi derrotado: se derrotou. A arrogância determinou o resultado. Severino foi o desaguadouro das insatisfações, das promessas não cumpridas e também colheu votos com sua simpatia pessoal.

Por que o sr. substituiu Severino na presidência na primeira votação polêmica depois da posse da nova Mesa Diretora? Porque o presidente me pediu. Eu estava ali do lado, e lugar de vice é ao lado do presidente. Tantas vezes ele peça, a gente vai assumir.

Sendo o presidente um homem com 74 anos e alguns problemas sérios de saúde, a Mesa já pensou em administração colegiada nas sessões plenárias? Miguel Arraes é quase 20 anos mais velho do que o Severino e comanda com mãos de ferro o PSB nacional e a esquerda pernambucana. O Severino é longevo, inteligente e vai comandar este processo político. Nosso papel é assessorar. Gosto de trabalhar rápido, de forma objetiva. Ele já havia me pedido para ajudá-lo e a melhor maneira de fazê-lo é presidir as sessões mais longas e cansativas, e dar assessoramento político.

Mas será uma assessoria de um deputado do PFL, partido adversário do governo. Isto puxará Severino para a oposição?

De forma alguma. As oposições somam hoje 111 deputados e eu tive quase 300 votos. Evidente que tenho que ter uma posição de equilíbrio porque tive votos da esquerda do PT, do PC do B todo, dos ruralistas, do PSDB todo e de metade do PFL. O líder da oposição terminou no exato momento em que assumi a vice-presidência. Como vice, também sou responsável pela imagem da Câmara e pela condução serena dos trabalhos.

Foi com esta preocupação que o sr. presidiu a votação do projeto da biossegurança?

Embora o assunto seja controvertido, pela primeira vez na Câmara se conseguiu concluir no mesmo dia uma votação complicada, sem privilegiar nem o governo nem a oposição. Minha posição foi de serenidade e equilíbrio.

Por que o sr. desenterrou um projeto do ministro José Dirceu que é frontalmente contrário ao que o governo faz, pois limita os gastos com a dívida pública em 10% da receita líquida?

Fiz isto com várias propostas do velho PT para clarear as contradições entre o partido e o governo.

Como membro da Mesa, o sr. fará alguma gestão para pôr esses projetos do PT em pauta?

De forma alguma. Não posso me aproveitar da circunstância para aprovar projetos de meu interesse. O juízo desses processos andarem ou não será do colegiado. Além disso, as contradições entre o discurso e a prática do PT no poder já estão claríssimas. Toda a sociedade hoje sabe que há um PT "ALP" (antes de Lula presidente) e outro "PLP" (pós).

O ministro Dirceu fez várias interferências no quadro partidário para engordar as fileiras do governo. Com Severino na presidência há temores de intervenções do governo na Mesa? Se o governo incentivou o troca-troca partidário, a primeira vítima deste processo foi ele próprio e o PT. Na medida em que robusteceu à beira da obesidade alguns quadros políticos que eram raquíticos pela vontade popular, esses quadros hoje - caso do PMDB -, são maiores do que o próprio PT na Câmara.

Qual foi sua posição em relação ao aumento salarial dos parlamentares? Eu não estava presente a esta discussão porque tive de viajar para os Estados Unidos para fazer uma pequena cirurgia. E mesmo na minha ausência, a Mesa não se reuniu e, portanto, não houve nenhuma posição oficial sobre isto. A idéia do aumento não passou de idéia que, repudiada pela sociedade, foi banida. O presidente da Casa recuou.

Mas neste recuo Severino sentiu-se traído pelo presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB - AL), reeditando a velha rixa entre as duas Casas. O senador Renan ouviu suas bases no Senado e achou que não deveria dar o aumento. Ambas as posições são democráticas e não devemos fazer de um dissenso uma rivalidade entre as duas Casas e vou trabalhar para que isto não ocorra. Quando o governo impôs a ferro e fogo sua vontade na Câmara, coube ao Senado, como Casa revisora, introduzir vários aperfeiçoamentos positivos na legislação. O que vou fazer é lutar, junto a Severino e à Mesa, para impedir que a Câmara continue sendo palco e cenário para equívocos autoritários corrigidos pelos senadores.

O que o sr. achou desta interferência do STF para tentar o aumento para os deputados sem passar pelo plenário?

Insólita.

Isto é motivo de preocupação? Não vejo ameaça. A prática política em um sistema democrático permite todo tipo de reunião. Reajo sempre a hipertrofias do Executivo. O PSDB também já teve seus surtos megalomaníacos, em Alagoas teve Collor e agora tem o Lula. Não gosto desses projetos de 20 anos e fico contente porque a sociedade também não.

Esse projeto de poder do PT chegará a 8 anos?

O presidente preserva sua imagem positiva. Mas seu governo é um desastre, uma tsunami nordestina. Quando a figura do presidente for contrastada com o governo em 2006, o resultado será outro.