Título: Cansados de esperar, ministros pedem que Lula faça logo a reforma
Autor: Christiane Samarco
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/03/2005, Nacional, p. A4
Cotados para perder o posto, como Humberto Costa e Olívio Dutra, querem que o presidente não estenda demais o episódio BRASÍLIA - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva está sendo pressionado por seus próprios ministros - alguns deles fortes candidatos a perder os cargos - a fechar de uma vez a reforma ministerial. Aflitos com a indefinição, ministros petistas mais próximos de Lula têm apelado ao chefe para que "acabe logo com isso", porque a situação de vários colegas está insustentável e eles não suportam mais a espera. O ministro da Saúde, Humberto Costa (PT), saiu abatido da audiência que teve na sexta-feira com o presidente, no Planalto. Embora seu nome sempre abra as listas dos petistas que vão ceder lugar a aliados na reforma do ministério, Lula nem tocou no assunto no encontro. Foi uma decepção. Segundo queixas do próprio ministro a um amigo petista, ele preferia ter tido um sinal, mesmo que fosse o "bilhete azul".
Como a expectativa é de que o presidente faça as mudanças nesta semana, Costa esperava um aviso prévio para organizar sua saída. Apesar de ser visto como ex-ministro até pelos companheiros de ministério, poucos apostam no sucesso da articulação em favor do ex-líder do PT na Câmara Arlindo Chinaglia (SP). Um dos principais colaboradores de Lula no Planalto desdenha desta movimentação, pois acha que seria "maluquice" tirar a Saúde do Nordeste para entregar a São Paulo.
Um dos cenários cogitados nos bastidores é o da transferência para a Saúde do ministro da Integração Nacional, Ciro Gomes (PPS), que deixaria sua cadeira para o deputado Eunício Oliveira (PMDB-CE). Mas Eunício também pode ser deslocado para Cidades, comandado hoje por Olívio Dutra (PT). Lula tem cobrado "mais ousadia" de Olívio que, a seu ver, apresenta resultados abaixo da expectativa. O presidente avalia que, se a gestão de Olívio não desperta críticas, também não permite ao governo faturar politicamente com seu sucesso administrativo.
ROSEANA
Em qualquer hipótese, a senadora Roseana Sarney (PFL-MA) é o nome mais forte para as Comunicações. Mas o governador do Acre, Jorge Viana (PT), trabalha outro cenário para acomodá-la. Ele está tentando convencer a ministra do Meio Ambiente, Marina Silva, a aproveitar a reforma para deixar o governo, com o discurso de que quer se candidatar a governadora de seu Estado.
Viana acredita que Marina pode manter a mesma Frente Popular que lhe deu vitória nos últimos oito anos. Seria a saída para tirá-la do confronto com setores do governo que lhe têm imposto derrotas sucessivas, como na semana passada. Ao aprovar a Lei de Biossegurança, o governo nem procurou disfarçar o apoio ao projeto que libera a pesquisa, o plantio e a comercialização de transgênicos, ao qual a ministra se opunha.
COORDENAÇÃO
Lula também está indeciso quanto a manter ou não Aldo Rebelo na Coordenação Política. Uma das idéias é pedir a ele que retome a liderança do governo na Câmara, cedendo o posto ao ex-presidente da Casa João Paulo Cunha (PT-SP), como quer o PT. Como João Paulo tem bom trânsito no chamado baixo clero, que deu vitória a Severino Cavalcanti (PP-PE) na briga pela presidência da Casa, a avaliação do Planalto é de que ele pode dar certo conforto ao governo, desde que faça um jogo bem combinado com Rebelo.
E como o próprio Rebelo tem dito a Lula que joga em qualquer posto, os petistas do governo apostam que não se negará a atender a um pedido dele. Dizem que o ministro não pode "estressar demais", porque quem o segura no posto é Lula, uma vez que seu PC do B é pequeno demais para sustentá-lo numa disputa com o PT. O presidente também teme que João Paulo na liderança governista seja "mais problema do que solução", já que pode fazer frente a Severino e provocar a ira de seu sucessor e do PP.
A hipótese de pôr Rebelo no Trabalho, substituindo Ricardo Berzoini (PT), perdeu força porque o PC do B é contra a reforma sindical. Embora saibam que o ingresso do PP no governo é o maior imbróglio político de Lula hoje, seus interlocutores mais próximos também não vêem com bons olhos a alternativa de entregar o Trabalho a um partido conservador como o PP.
Também avaliam que ter o aliado no Planejamento seria ruim, dada a simbologia do ministério. Resta a opção de entregar ao PP o Turismo. Neste caso, porém, Lula resiste porque avalia que Walfrido Mares Guia (PTB) está fazendo uma gestão bem-sucedida e não quer que o critério da competência seja ignorado na reforma.