Título: China: desafio e risco para o Brasil
Autor: Alberto Tamer
Fonte: O Estado de São Paulo, 06/03/2005, Economia, p. B4

OPINIÃO

Há muito ruído e confusão no comércio entre o Brasil e a China. Alguns utilizam números isolados, quase fora do contexto, e acabam, talvez inadvertidamente, tirando conclusões distorcidas. Este é um tema de grande importância para o comércio exterior e a indústria brasileira. Não se pode simplesmente comparar os resultados de um trimestre sobre o anterior porque - e aqui o enorme desafio - o Brasil é essencialmente exportador de matérias-primas agrícolas e essas exportações concentram-se nos quatro primeiros meses do ano. É preciso avaliar um cenário mais amplo. A China não é mais aquela que conhecíamos de alguns anos, da qual importávamos só as famosas "bugigangas". Hoje ela exporta vários bens industriais, produzidos ou produzíveis no Brasil! Esta é a nova realidade do comércio entre os países.

A coluna ouviu um dos maiores conhecedores do comércio brasileiro, o ex-embaixador Rubens Barbosa, que, em Londres e em Washington, nos fez compreender os caminhos que o País precisa seguir para aproveitar oportunidades e intensificar as exportações.

SUPERÁVIT PODE VIRAR DÉFICIT

"O grande crescimento da China no último decênio, mais os repetidos superávits que temos conquistado, no comércio bilateral, podem animar alguns empresários brasileiros mais desavisados. Mas, se existem grandes oportunidades para as nossas empresas, há sérias ameaças à indústria nacional. Em janeiro, o superávit comercial foi mantido apesar da desvalorização do real, mas é menor do que os obtidos no mesmo período de 2003 e 2004. Enquanto as exportações brasileiras para a China cresceram 6% em relação a janeiro de 2004, as importações provenientes daquele país cresceram 47%! Em 2004, nossas exportações para a China aumentaram 20% sobre 2003. Parece muito, e foi, mas as importações da China (o que compramos dela) tiveram alta de 72% no período!"

As estatísticas deste ano devem ser vistas com cautela porque é no primeiro semestre que embarcamos para a China produtos agrícolas como soja, que representam o grosso das nossas vendas àquele mercado. Isso infla nosso superávit no período e leva alguns a conclusões errôneas. "Se o ritmo das importações for igual ao de 2004, é possível que no segundo semestre, com menos embarques de soja, passemos a registrar déficit com a China em vez de superávits. E isso já aconteceu em outubro e novembro de 2004", alerta Barbosa.

CÂMBIO FAVORECE A CHINA

Enquanto o real se mantém em níveis muito altos, prejudicando a competitividade das exportações, o yuan tem paridade fixa com o dólar a uma taxa que não cedeu em anos. "Decorre daí que o real sofreu grande apreciação também em face do yuan, barateando em reais as mercadorias da China. Espera-se que a depreciação do real em relação ao dólar seja uma indicação de mudança de tendência. Isso é especialmente importante com relação à China."

EXPORTAMOS COMMODITIES...

"O que mais me preocupa, porém, neste comércio bilateral, não é tanto a evolução dos valores globais da balança comercial, mas sim a natureza das transações. A pauta das nossas exportações à China é fortemente baseada em produtos básicos. Em 2004 eles representaram 59% das nossas vendas para a China. Soja em grão, 30%, e minério de ferro, 21%. Essas duas commodities representaram mais da metade (59%) das exportações brasileiras para a China! É uma concentração desconfortável e perigosa", afirma Rubens Barbosa.

HÁ OUTRO FATO MAIS DELICADO

"Mesmo os principais produtos industrializados que o Brasil exporta para a China são derivados diretos de produtos primários, com baixo valor agregado: óleo de soja (8% do total), celulose (5% do total) e laminados planos de ferro ou aço (4%)." O ex-embaixador insiste: "Na questão dos produtos primários, não são os brasileiros que vendem, mas os chineses que compram... Nossas exportações estão muito mais apoiadas na expansão da demanda chinesa do que em nossa competitividade".

...IMPORTAMOS MANUFATURAS

Por outro lado, 88% das importações brasileiras da China em 2004 foram de produtos manufaturados. Os produtos mais significativos foram: partes de transmissores ou receptores (9,4% das importações brasileiras), coques de hulha (9%), dispositivos de cristal líquido (4%) e circuitos integrados eletrônicos (4%).

PADRÃO DE SUBDESENVOLVIDO

O padrão da relação comercial entre Brasil e China segue aquele verificado entre países subdesenvolvidos e industrializados: exportamos commodities agrícolas de baixo valor agregado e importamos produtos industrializados de alto valor agregado. Até mesmo o superávit de US$ 1,73 bilhão conquistado pelo Brasil no comércio com a China em 2004 oculta uma faceta ameaçadora. "Considerando-se apenas o setor industrial, o Brasil teve grande déficit com a China, de US$ 1,6 bilhão. Em 2003, para comparação, o Brasil havia alcançado superávit de US$ 176 milhões no setor industrial.

EMPRESARIADO ESTÁ ATENTO

Para Rubens Barbosa, "o empresariado brasileiro, atento às grandes oportunidades desse imenso mercado, começa a perceber também as ameaças que a China pode representar à produção nacional, e já estuda, através de associações como a Fiesp, possibilidades para proteger a economia brasileira".