Título: Hezbollah mostra sua força
Autor: Scott Wilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2005, Interncaional, p. A16

Protesto gigante é recado à oposição de que seu domínio acabou BEIRUTE - Na maior manifestação em semanas de levante político no Líbano, centenas de milhares de libaneses celebraram terça-feira a longa presença militar da Síria e aplaudiram quando o influente líder de um partido islâmico militante exigiu que os EUA e o movimento de oposição apoiado por Washington parem de abalar o volátil sistema político do país. O protesto, organizado pelo partido muçulmano xiita armado Hezbollah, lotou uma enorme praça no centro de Beirute e ocupou quilômetros de ruas e avenidas em todas as direções. A dimensão do protesto mostrou à oposição libanesa anti-Síria que seu domínio do debate político nas últimas semanas acabou. E o líder do Hezbollah advertiu enfaticamente que aqueles que defendem a retirada síria e o desarmamento de seu partido não representam a maioria dos libaneses.

Centenas de manifestantes exibiram retratos do presidente sírio, Bashar Assad, e cartazes afirmando, em inglês: "Todos os nossos desastres vêm da América" e "Não à intervenção americana.". Além de oferecer provas sólidas do tamanho do apoio à Síria no Líbano, a manifestação sublinhou a profunda preocupação do Hezbollah com as exigências externas de que abra mão de seu potente arsenal, um legado da guerra civil.

"Digo aos sírios: 'Somos os libaneses leais, as pessoas decentes'", afirmou o secretário-geral do Hezbollah, Hassan Nasrallah, à ruidosa multidão. "A Síria não está presente apenas como um exército. Está presente no coração, na mente e no futuro do Líbano."

A manifestação expôs a divisão profunda e potencialmente perigosa aberta no Líbano com o assassinato, em 14 de fevereiro, do ex-primeiro-ministro Rafic Hariri, pelo qual muitos no país responsabilizam os serviçoes de inteligência sírios. Depois do atentado, uma aliança de partidos cristãos, drusos e muçulmanos sunitas se formou em oposição ao governo libanês pró-Síria, organizando manifestações regulares que ajudaram a derrubar o primeiro-ministro Omar Karami na semana passada. (Ontem, Karami foi encarregado de formar novo governo.)

A maioria xiita do Líbano vinha se mantendo à margem, permitindo que o movimento de oposição, composto principalmente pelas classes média e alta, se reunisse diariamente perto do túmulo de Hariri, na Praça dos Mártires. Aquelas manifestações, transmitidas ao vivo no Líbano por emissoras de TV pró-oposição, haviam dado a impressão de que uma maioria dos libaneses apoiava a retirada síria total. Na terça-feira, no entanto, as multidões de simpatizantes da Síria reunidas na Praça Riad el-Solh contestaram essa imagem.

A manifestação foi realizada um dia depois de Assad ter anunciado planos de recuar os 15 mil soldados da Síria no Líbano para o Vale do Bekaa, no leste do país, até o fim do mês. Ele deixou em aberto o cronograma para uma retirada total.