Título: Minério mais caro aumenta exportações em US$ 3,5 bi
Autor: Denise Chrispim Marin
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2005, Economia, p. B15

Pedido de reajustes elevados chegou a preocupar o governo, que temia os impactos inflacionários A intenção da Companhia Vale do Rio Doce de aumentar em 90% o preço do minério de ferro, no início do ano, despertou mais que uma gritaria nos setores consumidores de aço. Preocupado com a repercussão da medida na taxa de inflação, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva cobrou, por telefone, uma justificativa de Roger Agnelli. Em reação imediata, o presidente da Vale embarcou para Brasília seu diretor financeiro, Fábio Barbosa, para tratar do assunto diretamente com Antonio Palocci. Após uma análise do setor, o governo virou sua mira para o outro lado: chamou a atenção dos fabricantes de aço do Brasil para os lucros auferidos nos últimos anos e baixou a alíquota do Imposto de Importação de bobinas e de folha de flandres. A CVRD, por sua vez, fechou com as siderúrgicas chinesas e européias um contrato para a elevação do preço do minério de ferro em 71,5%, cobrado a partir de abril, que balizará os valores em um período de 12 meses.

Barbosa apresentou-se no Ministério da Fazenda munido de um estudo da Fundação Getúlio Vargas que apontou que o aumento de 71,5% no preço do minério resultaria em acréscimo inferior a 0,045% no IPCA do ano. Entretanto, provocaria também uma elevação de US$ 3,5 bilhões nas exportações da companhia. Estudos adicionais do governo confirmaram essas projeções e indicaram ainda que, entre 2001 e 2004, a margem de lucros do setor siderúrgico brasileiro foi 14 vezes superior ao aumento de preços do minério de ferro e provocou um aumento expressivo do valor de suas ações.

Diante dessa constatação, o governo decidiu reduzir a alíquota de importação de itens siderúrgicos. Quis, com isso, impedir a indústria de aço de repassar para seus preços o impacto do reajuste de 71,5% no minério de ferro.

Os estudos também confirmaram que a elevação de preços do minério de ferro não recairá na indústria brasileira com o mesmo impacto sofrido pelas empresas no exterior, pois estas arcam com o custo mais alto do frete. Ontem, Barbosa insistiu que os preços finais mais baixos cobrados das siderúrgicas nacionais significam um ganho de competitividade, e que o impacto na inflação será "pouquinho".