Título: Força-tarefa fecha 5 hotéis e prende 12 na Cracolândia
Autor: Marcelo Godoy
Fonte: O Estado de São Paulo, 10/03/2005, Metrópole, p. C1
Blitze prosseguem até amanhã; depois, Prefeitura promete limpeza e melhora da iluminação, num esforço para recuperar região Policiais e fiscais da Prefeitura lotavam o pátio do Clube da Esperança. Eram 7 horas na Rua General Couto de Magalhães. Com armas e mandados judiciais, eles aguardavam só a chegada dos médicos da Vigilância Sanitária para começar a blitz - o atraso foi de 30 minutos. Divididos em três equipes, saíram a pé para revistar hotéis, bares e restaurantes da Cracolândia, centro de São Paulo. Começou assim a operação conjunta de ontem da Prefeitura e das Polícias Civil e Militar para combater a criminalidade na região e recuperar os imóveis degradados, que prosseguirá até amanhã. "Depois da ação da polícia, vamos limpar, pintar e iluminar as ruas", disse o subprefeito da Sé, Andrea Matarazzo. No fim da tarde, Prefeitura e polícia divulgaram um balanço: 5 hotéis fechados e 3 notificados; 2 bares e restaurantes fechados e 11 multados. Os policiais fizeram 12 prisões em flagrante por tráfico e porte de drogas - entre os detidos havia dois meninos de 10 anos. Apreenderam uma espingarda, dois revólveres, 426 papelotes de cocaína e pedras de crack, além de 4.300 CDs e DVDs piratas.
Pela manhã, a primeira equipe da força-tarefa entrou no Hotel New York. Outra caminhava em direção à Hospedaria São José quando dois travestis deixaram às pressas o prédio. "Filma, filma essa velha bêbada", gritou um dos travestis para a imprensa enquanto se afastava. O terceiro grupo rumou para o Comercial Palace Hotel, especializado em abrigar sacoleiros. Duas horas depois, os três estabelecimentos estavam interditados.
Na calçada em frente do New York, os funcionários reclamavam que os "nóias" (viciados em drogas) tinham sido trancados no quarto reservado a eles enquanto o hotel era revistado. "E se sumir alguma coisa da gente?", perguntava Valdir dos Santos. Em pouco tempo, os policiais descobririam uma escopeta, 250 papelotes de cocaína e um revólver num dos quartos. "Não foi possível prender ninguém porque o hotel não tinha registro dos hóspedes", disse o delegado Mário Jordão Toledo Leme, da 1.ª Delegacia Seccional. O New York foi interditado por razões sanitárias.
Em situação pior estava a hospedaria. Uma ligação clandestina garantia eletricidade para o imóvel - que tem uma dívida de R$ 8,5 mil com a Eletropaulo. Os homens do Departamento de Controle do Uso de Imóveis (Contru) e da Vigilância Sanitária encontraram ainda falhas de seguranças e de higiene. Na portaria, o delegado Alexandre Cavalheiro se queixava: "O problema são as pulgas, que vão com a gente para casa. Se fosse ladrão era fácil: era só deixar na delegacia."
O hotel, cuja porta estava sem fechadura, teve a entrada fechada com blocos de cimento. A porteira Marineide Alves de Souza, de 38 anos, ficou com as chaves para entregar ao dono. Ela trabalhava havia sete meses no lugar. "Não sei o que será do meu emprego."
No pior de todos os hotéis, o Cactus, a porta fechada com corrente e cadeado foi aberta pelos policiais, que encontraram três hóspedes e cachimbos para o consumo de crack no lugar. A entrada do Cactus também foi concretada. "Isso é para evitar que os traficantes voltem a invadir o imóvel", disse o delegado.
FURTO
No fim da rua estavam os outros dois hotéis fechados, um deles o Marabá, interditado por causa de problemas com o poço artesiano. Em dois dos estabelecimentos vistoriados, funcionários da Eletropaulo encontraram provas de furto de energia - os funcionários da Sabesp também acharam irregularidades em relógios d'água.
As ações na Cracolândia começaram há dez dias, com funcionários da Secretaria da Assistência e Desenvolvimento Social do Município. Eles abordaram 663 pessoas e encaminharam 369 a albergues e casas de saúde. A partir de segunda-feira, foi a vez de a polícia iniciar operações na região. Agora é a Prefeitura que chega com fiscais e guardas-civis. "E vai continuar assim. Esse trabalho será mantido depois do término da operação." É o que garante o coordenador de Segurança do Município, coronel Alberto Silveira Rodrigues.