Título: No Rio há muita fila para pouco médico
Autor: Wilson Tosta e Felipe Werneck
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/03/2005, Nacional, p. A7

Balconista não consegue um otorrino para filho; porteiro fica sem remédios RIO - Por dois dias seguidos, a balconista Adriana Maria Marques, de 30 anos, procurou atendimento no Hospital do Andaraí, um dos que estão sob intervenção federal, para o filho Adriano, de 9 anos. Não havia otorrino para retirar um pedaço de papel, que, numa brincadeira, o menino enfiou no ouvido. Ela procurou então o Hospital Souza Aguiar, outra instituição em que o governo federal interveio. Estava lotado. A família foi ao posto de saúde onde Adriano costuma ser atendido. O expediente estava encerrado. "Meu filho terá de ficar até segunda-feira com dor, o ouvido sangrando. É um descaso muito grande."

O porteiro Josafá da Silva Azevedo, de 30 anos, conseguiu que o filho, João Victor, de 2, que tinha febre e tosse, fosse atendido no Andaraí. O médico prescreveu xarope, anti-histamínico e antitérmico. Não havia nenhum dos três remédios na farmácia da instituição.

O desabastecimento e a falta de pessoal são problemas que o coordenador da intervenção, Sérgio Côrtes, terá de enfrentar no Andaraí e nos outros cinco hospitais que estarão sob gestão federal. Côrtes esteve ontem no Andaraí e percorreu algumas dependências. O interventor disse que tomou algumas decisões de emergência.

Equipamentos e medicamentos do Instituto Nacional de Traumato-Ortopedia (Into) foram levados para o Hospital Cardoso Fontes, que teve a emergência reaberta. O Instituto Nacional de Cardiologia Laranjeiras e o Into funcionarão 24 horas nesse fim de semana. Só no Into, 100 leitos foram disponibilizados para atender emergências.

Côrtes disse que não haverá confusão entre a antiga direção do Andaraí, que não foi exonerada, e o comitê gestor nomeado para atuar no hospital. "Ela (a ex-diretora Sara Asenjo) vai administrar o que nós dermos para ela administrar. Todos os investimentos propostos para o prefeito Cesar Maia fazer, e que ele não aceitou, vamos fazer agora", disse Côrtes, que dirige o Into e vai acumular ainda a gestão do Souza Aguiar e do Miguel Couto.

A ex-diretora não ficou satisfeita com a intervenção. "Algumas respostas precisavam ser dadas, mas não acredito que essa seja a mais acertada."

Depois da passagem de Côrtes pelo Andaraí, os problemas começaram a ser resolvidos.

A médica Roseli Monteiro da Silva, diretora do Hospital Geral de Bonsusesso, assumiu o posto de gestora do Hospital do Andaraí, ontem à tarde, e formou um comitê com integrantes da antiga direção, enfermeiros, médicos e auxiliares administrativo.

O grupo fará o levantamento dos contratos que precisam ser renegociados, dos medicamentos que serão comprados emergencialmente, e quantos profissionais precisam ser contratados. Ela não deu previsão para a reabertura da emergência.