Título: Efrain, 19 anos, e a suspeita: esteróides podem matar?
Autor: Duff Wilson
Fonte: O Estado de São Paulo, 12/03/2005, Esportes, p. E6

Jogador de futebol americano na universidade, rapaz usava esteróides. Parou bruscamente. Menos de um mês depois, suicidou-se VACAVILLE, CALIFÓRNIA - Brenda Marrero deparou com o filho Efrain surfando pela Internet em um determinado dia do mês de outubro do ano passado. Como o garoto procurasse esconder da mãe o conteúdo da tela, ela lhe perguntou do que se tratava. Ele então virou-se para ela e disse que precisava lhe contar uma coisa: estava tomando esteróides. Ela chamou o marido, Frank, e ambos disseram a Efrain que ele precisava parar com aquilo, porque esteróides são perigosos.

"Mas o Barry Bonds toma", os pais de Efrain lembram-se de ouvi-lo dizer. "Isso não quer dizer que esteja certo", respondeu o pai.

Então, para agradar os pais, Efrain entregou-lhes uma dúzia de pílulas rosa, um frasco e duas seringas. Sua mãe jogou as pílulas no vaso e guardou o frasco. Efrain, que jogava futebol americano, prometeu parar de usar esteróides. Foi uma promessa que ninguém duvida que ele tenha cumprido.

Três semanas e meia depois, Brenda Marrero encontrou Efrain em um quarto da casa com uma bala na cabeça e um revólver calibre 22 na mão. Não havia bilhete algum explicando a razão do suicídio. Ele não tinha histórico de depressão ou de doença mental. Efrain tinha 19 anos.

"Não percebemos o que estava acontecendo", disse Brenda Marrero em prantos. "Ficamos totalmente arrasados."

Só muitas semanas depois os pais de Efrain descobriram que seu filho vivia rodeado por usuários de esteróides. O namorado da irmã, os colegas de trabalho do correio e praticantes de halterofilismo da academia que freqüentava usavam esteróides. Na Faculdade de Siskiyous, onde foi estudar, Efrain entrou para o time de futebol. Ali, vários dos jogadores usavam esteróides, segundo depoimento de três ex-atletas do time.

No momento em que se deram conta do efeito que podia ter a interrupção da ingestão de esteróides sobre os hormônios de um adolescente, os Marrero encontraram uma explicação plausível para o suicídio de Efrain: a família, seu médico e amigos acham que ele mergulhou em um abismo depois que parou subitamente de tomar esteróides.

Dois suicídios anteriores foram atribuídos pelos pais e médicos ao uso de esteróides por atletas jovens: os dos jogadores de basquete Rob Garibaldi, de 24 anos, de Petaluma, Califórnia, ocorrido em 2002, e Taylor Hooton, de 17 anos, de Plano, Texas, em 2003. Os dois morreram pouco depois que pararam de usar esteróides.

Numa época em que é cada vez maior a preocupação com o uso de esteróides por atletas jovens, além dos riscos duradouros à saúde relacionados com o uso de drogas, os três suicídios, embora configurem casos extremos, deixaram claro para muitos especialistas médicos os riscos iminentes causados pela retirada dos esteróides.

Donald Hooton, pai de Taylor, foi chamado para depor juntamente com outras testemunhas sobre o uso de esteróides em uma audiência na quinta-feira dos subcomitês de saúde e de proteção ao consumidor do Congresso. Os pais de Hooton e Garibaldi também foram convidados a testemunhar sobre a política de esteróides perante a Comissão da Câmara que trata da Reforma do Governo, no dia 17 de março.

Muitos especialistas suspeitam que outros suicídios de adolescentes possam estar relacionados à interrupção do uso de esteróides, uma vez que os jovens são muito vulneráveis às oscilações hormonais. Contudo, a ligação ainda não está provada. Por razões éticas, os pesquisadores não podem trabalhar com um modelo de estudo médico que induza a depressão em alguém por meio de esteróides, interrompendo bruscamente o fornecimento da droga logo em seguida.

De acordo com especialistas, porém, existe uma evidência factual e uma explicação biológica razoável para a conexão. Quando uma pessoa toma esteróides, o organismo suspende a produção natural de testosterona. Quando ela interrompe o uso, o corpo precisa de semanas ou meses para voltar aos níveis normais, fazendo com que algumas pessoas, não todas, fiquem suscetíveis a mudanças de humor acentuadas.

"Efrain parou, conforme nós havíamos pedido a ele", disse Brenda Marrero. "Creio que depois disso ele mergulhou em uma depressão cada vez mais aguda. Não sabíamos disso na época, mas hoje estamos cada vez mais convictos de que o procedimento correto no caso não é a interrupção brusca. Foi isso o que eu acho que aconteceu: os esteróides mataram meu filho."

O suicídio de Efrain ocorreu em uma região onde o escândalo dos esteróides envolvendo o Bay Area Laboratory Co-Operative - laboratório acusado de fornecer esteróides ilegais a pelo menos 30 atletas - é coberto intensamente pela mídia há mais de um ano. Em São Francisco, a 112 km a oeste de Vacaville, promotores públicos federais preparam-se para levar a julgamento o caso do laboratório, em que quatro homens, inclusive o personal trainer de Barry Bonds, são acusados de conspiração com o propósito de distribuir esteróides.

Os Marrero mudaram-se para Vacaville, uma cidade limpa e simpática, quando Efrain tinha dez anos. Quando completou 14 anos, Mark McGwire alcançava a marca de 70 pontos na temporada de beisebol profissional. Efrain perguntou aos pais se podia usar creatina, um aminoácido que estimula a formação da massa muscular. A creatina, observou, era vendida em lojas de alimentos e de produtos saudáveis. Muitos adolescentes a consumiam, mas os pais de Efrain não consentiram.

Efrain era um dos garotos mais altos da classe, media 1,82 m e pesava 90 kg. Durante quatro anos, ele jogou no ataque do time de sua escola, em Vacaville.

Falou com os amigos sobre o androstenedione, um precursor do esteróide usado por McGwire. "Ele disse que era um esteróide legal e que estava à venda. Bastava esfregá-lo no corpo para acabar com a gordura", disse Rob Cullinan, melhor amigo de Efrain. "Ele sempre foi alto e veloz, mas queria ter sempre uma vantagem a mais em relação aos outros."

Efrain também conversou sobre esteróides com Erik Svendensen, namorado de sua irmã, Érika. Svendensen disse em uma entrevista que havia injetado esteróides no corpo para ganhar massa e assim poder entrar no time de futebol da escola de Vacaville.

Usuários experientes tomam às vezes drogas de fertilidade no final do seus ciclos de esteróides para deflagrar a produção de testosterona e evitar colapsos psicológicos que podem se seguir à interrupção do uso dos esteróides.

"Os níveis de testosterona despencam, o que pode afetar a química do cérebro, responsável pelo controle do humor. Pessoas assim costumam ficar muito deprimidas e têm impulsos suicidas", disse o dr. Edward L. Klaiber, de Worcester, Massachusetts, pesquisador e endocrinologista. "Já tive vários casos de adolescentes que usavam esteróides e que tinham pensamentos suicidas."