Título: Da perna até o coração
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Fonte: O Estado de São Paulo, 16/03/2005, Vida&, p. A15

Médicos implantam válvula cardíaca inserindo-a por uma veia da coxa do paciente, em vez de abrir seu tórax NOVA YORK - Uma equipe de cardiologistas do Michigan implantou uma válvula cardíaca artificial num homem de 76 anos introduzindo-a por uma veia de sua perna esquerda, em vez de abrir seu tórax e parar seu coração. O paciente, Fernando Giangrande, passou pela cirurgia de três horas na quinta-feira, deixou o hospital no domingo e na segunda-feira já estava de volta ao trabalho, fazendo modificações em carros em sua concessionária Ford. A substituição da válvula por cirurgia com o coração exposto normalmente requer uma semana no hospital e um período mais longo para a recuperação - supondo, antes de tudo, que o paciente tenha sido considerado forte o bastante para a cirurgia. O implante experimental foi o primeiro de pelo menos 150 que serão requeridos pelos reguladores federais americanos antes de estudar a aprovação da técnica para o uso disseminado. Mas especialistas médicos dizem que o procedimento poderá eventualmente prolongar a vida de muitas pessoas mais velhas que são frágeis ou doentes demais para suportar a cirurgia com o coração exposto.

"É um milagre", disse Giangrande em casa na noite de domingo, depois de voltar do Hospital William Beaumont, em Royal Oak, subúrbio de Detroit. Ele lembrou que, há dois anos, cirurgiões de Port Huron, Michigan, lhe disseram que não havia nada seguro que pudessem fazer para deter o avanço de seu problema cardíaco.

A cirurgia substitui a válvula aórtica, que impede o sangue de voltar para o coração. Os médicos do Beaumont encontraram vários obstáculos. Especialistas advertem que, mesmo que a técnica seja dominada, os reparos no coração podem não durar tanto quanto os feitos pela cirurgia convencional.

O médico de Giangrande, William W. O'Neill, chefe de cardiologia do Beaumont, afirmou que a técnica, em sua forma atual, é um último recurso. "Pessoas que são boas candidatas à cirurgia com o coração exposto nem devem considerar isso", afirmou.

A durabilidade a longo prazo tem sido difícil de medir até agora, pois os únicos candidatos à técnica estavam tão doentes que alguns morreram durante a operação. Vários outros sobreviveram por apenas alguns dias ou meses. Na única tentativa anterior nos EUA, realizada em setembro de 2003 por O'Neill, o paciente morreu depois de cinco dias. E, na Europa, onde cardiologistas experimentam a abordagem há três anos, apenas 3 dos mais de 40 sobreviveram por mais de um ano.

A complexidade da operação também é um lembrete do motivo pelo qual muitas inovações que melhoram a saúde individual tendem a elevar os gastos gerais com saúde. A substituição da válvula com o coração exposto custa mais de US$ 50 mil. Embora a nova técnica possa abreviar as internações, ela pode se mostrar mais custosa no fim das contas. A Edwards Lifesciences, que fabrica a válvula, diz que os produtos podem custar de US$ 10 mil a US$ 12 mil por cirurgia. É o dobro do que ela cobra por válvulas aórticas implantadas cirurgicamente.

Assim, o dispositivo, se for desenvolvido com sucesso para o mercado, provavelmente se tornará mais um tópico do debate crescente sobre quanto a sociedade pode investir para prolongar a vida de pacientes frágeis e mais velhos.

A nova válvula aórtica de Giangrande é feita do tecido da parede externa de um coração de cavalo costurado no interior de um grande stent, que é uma malha cilíndrica de aço inoxidável. Para introduzir o dispositivo, os médicos o prenderam na ponta de um cateter plástico e o comprimiram para que ficasse com o diâmetro de um lápis. Eles introduziram o cateter na grande veia femoral da coxa esquerda e o levaram até o coração. Quando a válvula chegou à entrada da aorta, os médicos inflaram um balão na extremidade do cateter para expandi-la e encaixar o stent na borda calcificada da válvula antiga.