Título: Farra pressiona inflação e impede juro menor
Autor: Fernando Dantas
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/03/2005, Nacional, p. A4
O aumento dos gastos públicos está complicando o combate à inflação e contribuindo para manter os juros reais brasileiros em níveis recorde, na visão de diversos economistas. "O juro real tem de ficar elevado porque a política fiscal continua expansionista", diz Sérgio Werlang, diretor executivo do Banco Itaú. Ele explica que os gastos do governo aumentam a demanda pelos produtos: "Este aumento tem de ser compensado no resto da economia e o único instrumento é a taxa de juros".
Alguns críticos dos juros altos lembram que, no ano passado, houve uma associação pelo governo entre o aumento da meta de superávit fiscal primário (exclui juros) de 4,25% para 4,5% do PIB e a possibilidade de o Banco Central (BC) atenuar a política monetária. E o fato é que o BC continuou elevando a Selic (taxa básica), mesmo depois daquela decisão fiscal.
Por outro lado, as pressões inflacionárias não diminuíram e a economia continuou aquecida. Werlang foi um dos economistas que apontaram o fato de a teoria econômica mostrar que, por razões complexas, quando há um aumento de gastos acompanhado de uma ampliação equivalente dos impostos, ainda assim há pressões de demanda. Em 2004, o superávit primário subiu de 4,3% (2003) para 4,6%, mas os gastos do governo também cresceram
O aumento do superávit primário em 2004 foi obtido com a ampliação da carga tributária como proporção do PIB, mesmo num ano no qual a arrecadação e a economia cresceram vigorosamente. Desta forma, de acordo com aquela teoria, pode ter havido pressão inflacionária.
Mas se há dúvidas em relação a 2004, existe quase um consenso entre os analistas de que a política fiscal em 2005 deve ser expansionista, estimulando a demanda, e dificultando a vida do Banco Central, em um momento em que os juros reais básicos já estão no nível altíssimo de 13% ao ano. Em 2005, há indicações de que não só as despesas vão continuar a subir, mas o superávit primário vai diminuir.
A meta de superávit primário para 2005 é de 4,25% do PIB, mas como o Brasil fez um acordo com o Fundo Monetário Internacional (FMI) liberando alguns investimentos prioritários, o indicador pode cair para 4,1%. Esta semana, o secretário do Tesouro, Joaquim Levy, afirmou que a meta de superávit primário poderia aumentar, mas depois recuou, dizendo que fora apenas um comentário teórico.
Uma das maiores preocupações de analistas e investidores é que o governo parece confiar demais no cenário internacional excepcionalmente favorável, que pode acabar a qualquer momento. Alexandre Marinis, do CSFB, lembra que há fatores internos preocupantes este ano, como o fato de que os juros serão mais altos e a economia vai crescer menos. Para ele, o governo deveria aproveitar os bons ventos externos para fortalecer a política econômica e garantir que o Brasil reduza suas vulnerabilidades rapidamente, antes que uma eventual tempestade internacional estrague o espetáculo do crescimento.