Título: Pânico pré-reforma passa longe do grupo dos estáveis
Autor: Christiane Samarco, Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/03/2005, Nacional, p. A6

Há 15 dias, num café da manhã com jornalistas, para falar sobre o setor de agronegócios, indagaram ao ministro da Agricultura, Roberto Rodrigues, por que o nome dele nunca aparecia nas listas da reforma ministerial. Rodrigues parou, pensou, olhou para cada um dos presentes e respondeu: "Não sei. Essa é uma pergunta difícil. Por que não perguntam sobre coisas mais fáceis, como transgênicos?" No ministério Lula há outros ministros estáveis, que nunca se abalam quando o pânico toma conta da maioria de seus colegas, por causa dos longos períodos de hibernação que geralmente antecipam as reformas ministeriais do governo petista. Antonio Palocci, da Fazenda, José Dirceu, da Casa Civil, e Luiz Gushiken, da Comunicação e Gestão Estratégica, sabem que costumam atravessar ilesos por essas fases difíceis dos principais assessores do governo.

Os três ministros do altíssimo clero de Lula são também conselheiros do presidente e se reúnem com ele praticamente todos os dias. Gushiken, que tem problemas de saúde, às vezes falha um ou dois dias da semana; Palocci e Dirceu não. Carregam uma amizade e uma proximidade política de mais de 20 anos. Gushiken e Dirceu foram presidentes do PT depois de Lula.

VACINA

Mas como eles, outros ministros prosseguem imunes à boataria das demissões - Celso Amorim, das Relações Exteriores, Gilberto Gil, da Cultura, e Luiz Fernando Furlan, do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Enquanto estes seis escapavam, ministros como Aldo Rebelo, da Coordenação Política, Humberto Costa, da Saúde, e Amir Lando, da Previdência, eram fritados e torrados pelo governo e pela base aliada.

Para o líder do governo no Senado, Aloizio Mercadante (PT-SP), o time Palocci, Dirceu, Gushiken, Amorim, Furlan, Gil e Rodrigues está atravessando a crise como se estivesse num outro plano político. Alguns deles nem pertencem a partidos fortes (Gil é filiado ao PV) ou sequer têm filiação partidária. Mas todos têm conhecimento e identidade com as pastas que dirigem, o que é fundamental para um bom desempenho no governo.

De acordo com o líder do governo, Celso Amorim, apesar de não ser filiado ao PT, é identificado com o projeto petista de política externa; já Gil é um dos maiores nomes da música brasileira, negro, baiano, intelectual; e Furlan teve um papel fundamental na política de comércio exterior do governo. Foi por conta dessa política que o Brasil alcançou, em março, a marca dos US$ 100 bilhões em exportação no período de um ano.

Para um dos ministros petistas mais próximos de Lula, o que acontece com os que escapam das ameaças da guilhotina é que eles têm algum tipo de bases sólidas, seja um partido, uma instituição ou categoria econômica ou classista. Rodrigues, lembra esse ministro, tem todo o setor de agronegócios a apoiá-lo; tornou-se tão forte que o PT nunca teve coragem de enfrentá-lo, a despeito de algumas refregas com setores que defendem a reforma agrária.

Furlan, que conta com apoio da área industrial, do comércio e da exportação. Amorim, diz o mesmo ministro, tem uma política externa agressiva, que responde muito bem às pregações do PT. E Gil, embora tenha se envolvido em alguns questões polêmicas, como a Agência do Cinema e Audiovisual (Ancinav), não tem um grupo organizado a combatê-lo, além de não ter ainda chamado a atenção dos petistas para a sua pasta.

Do outro lado da corda, Humberto Costa e Amir Lando entraram numa espécie de estresse progressivo. Lando chegou a perder 12 quilos. "O que fizeram com Humberto Costa não é humano. Ele pode ter cometido alguns erros, mas é uma pessoa que dedicou a vida toda à saúde", lamenta o deputado Walter Pinheiro (PT-BA), ao comentar a demora na definição do rumo político do ministro da Saúde. "No ministério, Amir Lando comeu o pão que o diabo amassou", diz o líder do PMDB no Senado, Ney Suassuna (PB).