Título: Urânio pode criar tensão entre governos Lula e Bush
Autor: Paulo Sotero
Fonte: O Estado de São Paulo, 20/03/2005, Nacional, p. A13

O programa brasileiro de enriquecimento de urânio em Resende poderá criar o primeiro foco de tensão grave entre os governos Lula e George W. Bush fora da esfera da política comercial. Se não forem resolvidas a tempo, as diferenças devem aflorar dentro de poucas semanas, durante a reunião de revisão do Tratado de Não-Proliferação Nuclear, em maio próximo, em Nova Iorque, que será presidida por um brasileiro, o embaixador Sérgio Duarte. No centro da questão está a intenção americana de conter o programa nuclear do Irã emendando o TNP de forma a proibir que países não nucleares enriqueçam urânio para fins pacíficos, o que é permitido pelo acordo. Na semana passada, Washington anunciou que endossa os esforços da Inglaterra, França e Alemanha para negociar a suspensão do programa de enriquecimento iraniano com as autoridades de Teerã.

No entanto, segundo o New York Times, a condição do apoio do presidente George W. Bush à estratégia dos europeus foi que o único desfecho aceitável das negociações é a desistência pelo Irã de seu direito, sob o TNP, de enriquecer urânio e da extinção da cláusula do acordo que prevê de tal direito - o mesmo que o Brasil usa para justificar o programa em Resende.

"No que significa uma reinterpretação do TNP, Bush agora argumenta que há uma nova classe de nações às quais não se pode confiar tecnologia para produzir materiais nuclear mesmo mesmo que o próprio tratado não faça tal distinção", informou o Times.

Ontem, o ex-secretário de Estado adjunto para América Latina, Bernard Aronson, explicou o significado da posição americana para o Brasil num artigo no Wall Street Journal. Ele pediu ao governo Lula que assuma a liderança de uma nova política de contenção de tecnologia nuclear pondo fim ao programa de enriquecimento de urânio do país, cuja fase piloto está prestes a ser iniciada, sob a supervisão da Agência Internacional de Energia Nuclear.

Aronson, um democrata e ex-advogado trabalhista que serviu na administração do primeiro presidente Bush, pede que o Brasil "lidere pelo exemplo" e ajude a tirar do Tratado de Não Proliferação Nuclear (TNP) cláusula que permite a países não nucleares enriquecer urânio.

"Ninguém acredita que o Brasil quer (desenvolver) capacidade para (construir) armas nucleares", escreveu Aronson. "Mas, países embusteiros, como o Irã, explorando a mesma provisão do tratado, podem obter todos os materiais necessários para produzir armas nucleares, anular o TNP e, num curto período de tempo, construir um arsenal nuclear."

A conclusão de Aronson é que "a decisão do Brasil de ir adiante com o enriquecimento (de urânio) mina os esforços do Reino Unido, França e Alemanha, em concerto com os EUA, para convencer os iranianos"e abre "uma caixa de pandora".