Título: 'Da Receita, temos tudo', diz a Kroll
Autor: Vannildo Mendes
Fonte: O Estado de São Paulo, 23/03/2005, Economia, p. B5
BRASÍLIA-A Polícia Federal e o Ministério Público descobriram que a empresa de consultoria americana Kroll Associates tinha domínio absoluto sobre as atividades da Receita Federal brasileira, inclusive acesso aos bancos de dados de todos os impostos e sobre a situação fiscal de qualquer contribuinte, pessoa física e jurídica. O acesso irrestrito incluía dados protegidos por sigilo constitucional, negados a qualquer cidadão brasileiro, até mesmo ao presidente da República, sem autorização judicial. O poder da Kroll ficou demonstrado em vários diálogos telefônicos do espião português Tiago Nuno Verdial com o chefe britânico, Willian Peter Goodal, o Bill, e com clientes e parceiros, interceptados com autorização judicial. Num deles, Verdial abre o jogo ao tentar impressionar a empresária Marina Barbosa, especialista em Marketing Empresarial. "Eu tenho uma fonte na Receita que me passa qualquer coisa de qualquer empresa", garante o espião.
No diálogo, Verdial orienta Marina a impressionar o cliente do qual ela pretende arrancar um contrato de prestação de serviços de consultoria, um grupo madeireiro de Rondônia. Ele oferece, como ajuda, dados sigilosos sobre os concorrentes ou desafetos do cliente, para ela incluir na proposta, como um diferencial.
Diz o espião: "Marina, deixa eu te falar uma coisa, se você quiser colocar... nos seus projetinhos de marketing... alguma coisa de inteligência competitiva (...) pode (...) fazer que você tem uma parceria com consultorias especializadas no ramo. Quero te falar o seguinte: se você precisar de qualquer coisa de análise de concorrência, cara, posso te ajudar..." Marina se interessa, puxa conversa e afinal comenta: "Você fica fuçando informações..."
Verdial fala da influência de sua fonte com desenvoltura: "Ela (a fonte) me passa de tudo, desde impostos - você não pode falar isso pro seu cliente porque você não é 'caruda' - mas eu tenho tudo - pessoa física ou jurídica, Imposto de Renda... Se for uma pessoa jurídica, saber quanto ela deve de impostos, todos, desde IPI, ICMS, ISS... qualquer imposto: municipal, estadual ou federal."
Na seqüência, o espião dá a dimensão da importância desse tipo de informação: "Dá pra saber também - de repente pro cara é interessante saber - se o principal concorrente dele tá sonegando ou então tá num p... pendura de impostos, não sei o quê... Você pode colocar, e pode enaltecer. É uma coisa que de repente vai criar um vínculo pro seu cliente e fazer com que ele perceba: 'Opa, é realmente um jeito especial'..." Ele informa, por fim, que esse tipo de ficha individual simples custa entre R$ 10 mil e R$ 15 mil.
ESTRUTURA GIGANTESCA
Reportagem publicada pelo Estado no domingo, com base em relatório secreto da Polícia Federal, mostra que a Kroll montou no Brasil um estrutura gigantesca de espionagem ilegal, sob encomenda do dono do Grupo Opportunity, Daniel Dantas, e da presidente da Brasil Telecom, Carla Cico. No material apreendido na Operação Chacal, em outubro de 2004, a PF localizou dossiês de várias concorrentes empresariais e desafetos políticos de Dantas e Carla.
Entre os alvos da espionagem estavam o empresário Luís Roberto Demarco, ex-sócio de Dantas, o ex-presidente do Banco do Brasil Cássio Casseb, o investidor Naji Nahas e o empresário Nelson Tanure. Entre as empresas, o principal alvo era a Telecom Itália, que disputa com o Opportunity o controle da Brasil Telecom.
Entre os funcionários públicos cooptados para o esquema, a PF identificou o ex-coordenador da unidade central de inteligência da Receita (Copei), Deomar Vasconcellos de Moraes. "Comprovou-se que Deomar possui vínculos e estaria trabalhando regularmente para a Kroll", diz o relatório.
Deomar confirmou ao Estado que trabalhou para a Kroll, mas ressalvou que os fatos denunciados ocorreram antes de sua ida para a empresa. Ele disse que sua atividade se limitava à assessoria na área tributária e negou ter obtido dados sigilosos de pessoas ou empresas.
Em agosto de 2004, a PF comprovou que Deomar despachava com regularidade no escritório da Kroll, no 14.º andar do Shopping Rio Sul, no Rio. Seu carro, uma Cherokee Sport, placa LNT-2045, ficava numa das três vagas da empresa, no subsolo do shopping.
A Kroll informou que Tiago Verdial não trabalha mais para a empresa desde as primeiras denúncias, em julho de 2004. Na ocasião, a PF descobrira que a espionagem de Verdial alcançara o ministro de Comunicação Institucional, Luiz Gushiken. A empresa disse que não vai comentar o relatório da PF porque o inquérito está sob sigilo judicial.