Título: Segurança não está na agenda do investimento social privado
Autor: Andrea Vialli
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/03/2005, Economia, p. B14

A questão da criminalidade e violência urbana ainda é negligenciada do ponto de vista do investimento social privado. No Brasil, são poucas as empresas que apóiam diretamente programas ligados à segurança. Mais comuns são os investimentos em projetos sociais focados em crianças e adolescentes, e o apoio a organizações não-governamentais. À primeira vista, a equação parece simples. A violência urbana, decorrente sobretudo das desiguldades sociais, poderia ser reduzida com os expressivos investimentos em projetos sociais. Embora contribuam com a redução da criminalidade, essas ações, na maior parte das vezes, mostram eficácia apenas a médio e longo prazos.

Por outro lado, os crescentes investimentos empresariais em gestão de riscos não deixam dúvidas sobre como a questão influencia o dia-a-dia dos negócios. Segundo pesquisa da consultoria Brasiliano & Associados, especializada em gestão de risco corporativo, com um universo de 75 empresas com mais de 500 funcionários, a maioria (65,4%) aumentou os investimentos nesse campo nos últimos três anos. "Ainda falta visão holística do problema. As empresas são atores centrais da questão da segurança, pois esta interfere diretamente nos negócios" explica Antonio Brasiliano, da Brasiliano & Associados.

O consultor acredita que, para que o investimento privado em segurança seja eficiente, deve se alinhar às políticas públicas. "As empresas entendem como responsabilidade as ações sociais, mas não investem em parcerias efetivas com o poder público" afirma.

Ele cita a experiência de países como a Inglaterra, onde houve integração forte entre as políticas públicas e o setor de segurança privada. Os municípios dialogam com as empresas e, juntos, esboçam metas para serem cumpridas. Nos Estados Unidos, as universidades e laboratórios ligados à iniciativa privada investem pesado em pesquisa policial. "Os contextos são diferentes, mas não vemos nenhuma empresa adotar esse direcionamento por aqui", diz Brasiliano.

A criminalidade é fruto da falta de perpectivas da maior parcela da população brasileira atualmente: os jovens de 15 a 24 anos, estimados em 35 milhões. Para Fernando Rossetti, diretor-executivo do Grupo de Institutos, Fundações e Empresas (Gife), foi só a partir dos anos 2000 que as empresas passaram a direcionar seus investimentos para esse público. Ao longo da década de 1990, as crianças foram o foco da ação social.

"A violência é um problema juvenil, pois falta emprego, educação de qualidade e identidade cultural para essa parcela da população", aponta Rossetti. "E em termos de investimento social privado, é hoje a área de maior crescimento", aponta. As principais fundações ligadas a grandes grupos empresariais são exemplos da canalização de investimentos para esse público. "A visão desse tipo de investimento é de fato atacar as causas, e não os sintomas da violência", reitera.

FEBEM

Desde o ano passado, o Pão de Açúcar fez uma parceria com a Febem para inserir jovens internos nas lojas do grupo. A iniciativa faz parte da política de diversidade da empresa e já foi responsável pela contratação de 42 pessoas. Os que estão em regime de semi-liberdade cumprem suas funções em horário comercial e retornam às unidades à noite.

"O objetivo do programa de contratação é dar oportunidades reais de mudança de vida para o jovem ", explica Marília Parada, diretora de Planejamento em Recursos Humanos. "Mais importante que o delito cometido é a vontade de mudar, o interesse na oportunidade", diz Marília. Os internos trabalham nas lojas das bandeiras Pão de Açúcar, CompreBem e Extra, nas funções de padaria, mercearia e administrativa. Até o fim do ano, a meta do grupo é chegar a 100 jovens.

Para o consultor Brasiliano, o investimento privado em iniciativas filantrópicas não é suficiente. "Como tirar a criança da favela só com projetos sociais, se ela ganha mais prestando serviço para o tráfico?", indaga. Na avaliação do consultor, investir em segurança pública não traz a mesma visibilidade que manter bons projetos sociais. As empresas pensam que investir em segurança como parte de sua responsabilidade social não dá um bom retorno de marketing, por isso não fazem", critica.

No contexto marcado pela violência, os prejuízos para as empresas são inevitáveis. Uma das conseqüências é o aumento dos riscos à segurança patrimonial, como o roubo de carga - só a Rodovia Presidente Dutra concentra 60% desse tipo de crime no País. Paralelamente, criou-se a indústria da segurança privada, que alimenta o mercado de carros blindados, seguranças particulares e cercas elétricas, tudo isso sem refrear a criminalidade.