Título: Sanções do rígido Ratzinger chegaram ao mundo todo
Autor: José Maria Mayrink
Fonte: O Estado de São Paulo, 26/04/2005, Vida&, p. A14

A história de dez católicos punidos quando o papa Bento XVI cuidava da ortodoxia

NOVA YORK Alguns padres, freiras e teólogos católicos foram investigados e disciplinados quando o cardeal Joseph Ratzinger, hoje papa Bento XVI, era o encarregado do Vaticano de impor a ortodoxia. Confira o que ocorreu a dez deles.

TISSA BALASURIYA - Padre e estudioso do Sri Lanka. Argumentou que a Igreja Católica Romana e o cristianismo em geral precisavam ir além para reconhecer a legitimidade de outras fés. Também criticou a exaltação da Virgem Maria e questionou a crença católica sobre o pecado original. Recebeu a ordem de assinar uma "profissão de fé" aceitando as políticas da Igreja, incluindo a política do Vaticano contra a ordenação de mulheres. Como se recusou, sugeriu assinar uma declaração sem a cláusula sobre o sacerdócio das mulheres. O documento foi rejeitado pelo Vaticano e ele foi excomungado em 1997. Balasuriya se reconciliou com a Igreja no ano seguinte.

EMMANUEL MILINGO - Ex-arcebispo de Lusaka, foi o primeiro nativo de Zâmbia a liderar a Igreja no país. Incorporou ritos de religiões africanas em suas missas, envolveu-se em cura pela fé e exorcismo e se apresentou como cantor e dançarino. Obrigado a renunciar e a mudar-se para Roma em 1983, continuou a realizar cerimônias heterodoxas na Itália, até receber formalmente a ordem de parar, em 1996. Em 2001, ganhou as manchetes ao se casar com uma coreana em Nova York, em celebração na Igreja da Unificação, do reverendo Moon. Foi ameaçado de excomunhão. Milingo voltou a Roma, reuniu-se com o papa João Paulo II, renunciou ao casamento e se submeteu novamente à autoridade da Igreja e a seu voto de celibato.

MARY AGNES MANSOUR - Freira americana. Em 1983, foi indicada para chefiar o Departamento de Serviços Sociais do Michigan, cujos programas incluíam o financiamento de abortos para mulheres pobres. Nesse mesmo ano, foi informada de que seu trabalho não era coerente com seu voto religioso. Obrigada a escolher entre os dois, ela renunciou à ordem das Irmãs da Misericórdia, embora tenha permanecido como associada da ordem. Morreu em 2004.

IVONE GEBARA - Religiosa brasileira da ordem das Cônegas de Santo Agostinho, se dedica hoje ao trabalho comunitário com mulheres perto do Recife (PE). Ainda amarga a condição dos proscritos depois de ter sido punida pelos rigores doutrinários de Joseph Ratzinger. Há dez anos, ela recebia a ordem de voltar à Universidade Católica de Louvain, na Bélgica, para iniciar um período de dois anos de "reeducação teológica". O veto do então cardeal veio porque Ivone enveredou pelos caminhos da teologia feminista, com as bênçãos da Teologia da Libertação. Cumpriu o castigo, manteve-se na vida religiosa e se empenhou na produção intelectual, tendo mais de 20 livros publicados.

JEANNINE GRAMICK - Freira americana que pertencia à ordem das Irmãs da Escola de Notre Dame. Em 1977, ajudou a fundar o Ministério dos Novos Caminhos, que tentou reconciliar os gays com a Igreja Católica. Escreveu dois livros sobre o homossexualismo e a Igreja. Em 1999, o Vaticano ordenou que suspendesse seu trabalho pastoral com os gays. Em 2000, as Irmãs da Escola de Notre Dame ordenaram que ela parasse de falar em público sobre a homossexualidade. Em 2001, ela se transferiu para as Irmãs de Loretto.

JACQUES DUPUIS - Padre belga e teólogo da Pontifícia Universidade Gregoriana em Roma. Argumentou num livro que, embora Jesus fosse o salvador da humanidade, Deus também trabalhava em outras religiões. Enquanto era investigado, o Vaticano publicou Dominus Iesus, que rejeitou a idéia de que todas as religiões levam a Deus. Foi impedido de lecionar, recebeu censura formal, que dizia que seus escritos "poderiam levar a opiniões errôneas ou nocivas". Morreu em 2004.

EDWARD SCHILLEBEECKX - Teólogo belga da Universidade de Nijmegen na Holanda. Serviu de teólogo para os bispos holandeses que participavam do Concílio Vaticano II. Questionou se Jesus estava consciente de sua missão messiânica e se o sepulcro de Jesus estava realmente vazio no terceiro dia. Foi interpelado formalmente vária vezes sobre o catecismo e seus escritos. Não foi adotada nenhuma ação punitiva contra ele.

LEONARDO BOFF - Era padre franciscano e professor de teologia em Petrópolis, na serra fluminense. Importante teólogo da libertação, os escritos de Boff enfatizavam o dever de ficar ao lado dos pobres em questões seculares, criticavam o uso que a Igreja fazia de seu poder e questionavam se uma igreja centralizadora era o que Jesus queria. Recebeu duas vezes (1985 e 1991) a ordem de não falar publicamente nem publicar nada por um ano. Deixou a ordem franciscana em 1992 e se tornou professor na Universidade Estadual do Rio de Janeiro em 1993.

GUSTAVO GUTIERREZ - Padre e escritor peruano, cunhou o termo Teologia da Libertação. Argumentava que a libertação prometida por Jesus não se restringia à espiritualidade, incluindo também uma "libertação de natureza política" e que os cristão tinham o dever de "criar uma sociedade justa e comunitária". Os críticos no Vaticano disseram que essas visões enfatizavam incorretamente o progresso político em detrimento da salvação eterna e o confronto em detrimento do diálogo. Em 1983, o Vaticano emitiu uma notificação com dez reparos a seus textos. Instruções de 1984 e 1986 criticavam certos aspectos da teologia da libertação. É atualmente professor de teologia na Universidade de Notre Dame.

MARCEL LeFEBVRE - Era Arcebispo de Tulle, na França, e líder dos tradicionalistas que rejeitavam as modernizações no ensino e na prática da Igreja introduzidas pelo Concílio Vaticano II. Fundou a Sociedade de Santo Pio X. Criou seu próprio seminário e atraiu seguidores das missas tradicionais em latim de todo o mundo. Quando ordenou quatro bispos em 1988 sem a sanção papal, ele e seus seguidores foram excomungados. Morreu em 1991.