Título: Renan e Dirceuse encontram, mas não superam o clima de desconfiaça
Autor: Vera Rosa, Christiane Samarco
Fonte: O Estado de São Paulo, 07/04/2005, Nacional, p. A6
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), almoçou ontem com o ministro da Casa Civil, José Dirceu, no Palácio do Planalto, mas o encontro não pôs fim à desconfiança entre os dois. Antes de se reunir com Renan, o ministro trocou dois telefonemas com o presidente nacional do PMDB, deputado Michel Temer (SP). A cúpula governista do partido, que inclui o senador José Sarney (AP), suspeita que o ministro tenha se aproximado de Temer não para ampliar o diálogo do partido com o governo, mas para criar uma interlocução paralela e, assim, aprofundar o racha entre as alas governista e rebelde. A crise de confiança que tomou conta dos governistas do PMDB ameaça dificultar ainda mais a vida do Planalto, abalando a já fragilizada sustentação no Congresso. Um dirigente do PMDB adverte que Dirceu está "semeando vento", ao enfraquecer Renan/Sarney no partido. BRASÍLIA
O presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), almoçou ontem com o ministro da Casa Civil, José Dirceu, no Palácio do Planalto, mas o encontro não pôs fim ao clima de desconfiança que prevalece entre os entre os dois. Antes de se reunir com Renan, o ministro trocou dois telefonemas com o presidente nacional do partido, deputado Michel Temer (SP). A cúpula governista do PMDB, em que se inclui o senador José Sarney (AP), suspeita de que o ministro tenha se aproximado de Temer não para ampliar o diálogo do partido com o governo, mas para criar uma interlocução paralela e, assim, aprofundar o racha entre as alas governista e rebelde.
A crise de confiança que tomou conta dos governistas do PMDB ameaça dificultar ainda mais a vida do Planalto, abalando a já fragilizada base de sustentação de Lula no Congresso. Segundo um importante dirigente nacional do partido, em vez de "jogar uns contra os outros no partido" o governo pode acabar unindo o PMDB contra o Planalto. Em resumo, este dirigente adverte que Dirceu está "semeando vento", quando cria uma da interlocução paralela para enfraquecer a dupla Renan/Sarney no partido. Ao agir desta forma, prossegue o dirigente, o Planalto pode "colher tempestade" com uma guinada do partido para o campo da oposição.
Segundo o parlamentar, a disposição geral entre os governistas da bancada da Câmara é de "dar uma lição" no Planalto, voltando-se contra o governo. Neste caso, ao menos em princípio a revolta ficaria restrita à Câmara, mas com tantas insatisfações acumuladas pelos senadores, não seria difícil que ela se estendesse pelo Senado.
Depois do desgaste da reforma ministerial que não houve, deixando de fora da equipe Lula a senadora Roseana (PFL-MA), filha de Sarney, a expectativa da cúpula governista era a de que o Planalto atuasse em direção oposta: em vez de minar a força de Renan e Sarney no partido, o governo agiria prestigiando a dupla. Prevalece nesta ala peemedebista a crença de que, uma vez fortalecidos na interlocução com Lula, a dupla de senadores teria força para agregar o restante do partido em torno de ambos, no apoio ao Planalto.
Mas em vez de prestigiar os dois, o governo optou por abrir um diálogo individual com Temer, justamente no momento em que Sarney se abateu com a situação da filha. Os amigos de Sarney dizem que ele não gostou da solução, mesmo tendo repetido que o presidente Lula não tinha "nenhuma outra alternativa", além de encerrar a reforma ministerial para não ceder à pressão pública do PP e preservar sua autoridade.
Pior ainda, o governo também estaria atuando de forma a pôr em dúvida o prestígio local de outro expoente da ala governista: o ministro das Comunicações, deputado Eunício Oliveira (CE). A bancada do PMDB cearense, presididido por Eunício, tem cinco deputados federais e, em vez de ampliar seu espaço de poder no Executivo federal, acabou perdendo posições depois do freio na reformado ministério.
Mais do que as velhas insatisfações por conta de recursos federais não liberados e dos pedidos de cargos não atendidos, os peemedebistas do Ceará se queixam de estarem sendo desalojados pelo PL, que só tem um deputado federal. O deputado Aníbal Gomes (PMDB-CE), que mantinha um indicado seu no Departamento Nacional de Infra-Estrutura e Transporte (Dnit) cearense teve de amargar a demissão de seu afilhado para ceder espaço ao PL do ministro dos Transportes, Alfredo Nascimento. Ao PMDB, o Planalto informou apenas que se tratava de uma iniciativa do ministro Nascimento, que está administrando como pode as pressões políticas sobre seu ministério.