Título: Vaticano publica lista de novos bispos
Autor: Jamil Chade
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/04/2005, Vida &, p. A20
CIDADE DO VATICANO - Desde o início da manhã, a guerra de informações tomou conta do Vaticano. Os jornais italianos afirmavam logo em seus programas matutinos que o papa teria entrado em coma. Ao meio dia, em uma emotiva entrevista coletiva, o porta-voz do Vaticano, Joaquín Navarro-Valls, confirmou que a situação do papa era grave, mas insistiu que ele estava "lúcido e sereno". Segundo o porta-voz, o papa teria até mesmo participado das orações. Questionado como se sentia pessoalmente, Navarro-Valls teve de conter o choro e decidiu concluir a coletiva de forma antecipada. Na porta da sala de imprensa, religiosos e curiosos se amontoavam para tentar obter informações. "O papa está fraco, o coração em situação complicada", reconheceu um funcionário do Vaticano ao Estado.
Enquanto o último comunicado era entregue na sala de imprensa, políticos e personalidades italianas se reuniam para celebrar uma missa pela saúde do papa. O cardeal Camillo Ruini, vigário-geral de Roma e presidente da Conferência Episcopal Italiana, foi quem comandou a missa. Pelo protocolo do Vaticano, ele seria o único que poderia anunciar a morte do papa. Muitos acreditavam que o anúncio ocorreria durante a missa, o que acabou não se concretizando.
O Vaticano seguiu com seu plano de realizar uma vigília na Praça São Pedro. Mais de 15 mil pessoas acompanharam a leitura das orações e muitos ainda acreditavam em uma recuperação.
Desorientados, os cardeais tentavam coordenar o que diriam aos jornalistas sobre o drama de João Paulo. Perguntado quem estaria no comando da Igreja, o cardeal polonês Zenon Grochvevksy respondeu: "O Senhor." Notando que havia cometido o deslize, tentou concertar. "Não é o papa que guia a Igreja. Não devemos estar preocupados com a Igreja. João Paulo II sempre nos ensinou que quem nos guia é o Senhor", disse ele. O conterrâneo de Karol Wojtyla concordou, porém, com os boletins do Vaticano: "A situação é muito grave."
Tentando mostrar que ainda está funcionando de forma regular, o Vaticano publicou ontem uma lista das novas nomeações de bispos. Para muitos analistas, essa foi uma forma encontrada pela Igreja para provar que a mudança no comando do Vaticano não interferiria nos trabalhos da cidade-Estado.
As janelas dos aposentos de João Paulo II também continuaram iluminadas durante a primeira metade da noite de ontem, em um sinal da Igreja de que o Pontífice ainda não teria morrido. A dúvida dos fiéis que acompanhavam o drama era saber até quando essas luzes ficariam acesas.
LULA
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acompanhou "atentamente" a agonia enfrentada nos últimos dias por João Paulo II. Ontem, assessores do Palácio do Planalto e do Ministério das Relações Exteriores foram encarregados de informar a Lula sobre a situação clínica do papa. Nos intervalos das audiências e dos encontros, o presidente demonstrou interesse pelas notícias do Vaticano.
Mesmo quando agências italianas informaram erroneamente que o papa tinha morrido, durante a tarde, assessores evitaram comentar a possibilidade de Lula participar das cerimônias em homenagem a João Paulo II na Basílica de São Pedro. "Lula está sendo informado por diplomatas e por funcionários da Secretaria de Imprensa sobre o estado do papa", disse um dos assessores.