Título: Adolescentes foram mortos jogando fliperama em bar
Autor: Rodrigo Morais, Roberta Pennafort
Fonte: O Estado de São Paulo, 02/04/2005, Metrópole, p. C1
Quatro adolescentes mortos nas chacinas de anteontem jogavam fliperama no Bar Caíque, em Nova Iguaçu, quando foram surpreendidos pelos tiros. P.A.C.A., de 16 anos, irmão de uma das vítimas, Felipe Carlos, de 13, contou que ele tinha acabado de chegar da escola quando foi assassinado. O adolescente foi avisado da tragédia pelo padrasto. "Estava na escola quando meu padrasto me contou sobre o crime. Fui correndo para o bar e vi o corpo do meu irmão no chão. Ele tinha chegado em casa um pouco antes e foi jogar fliperama, como fazia todos os dias." A mãe dos garotos, que é faxineira e estava trabalhando, teve uma crise nervosa ao saber do crime. Os outros menores mortos no bar são Douglas de Paula, de 14 anos, Bruno Souza e Leonardo Felipe da Silva, ambos de 15. Leonardo teve morte cerebral constatada ontem à tarde, no Hospital da Posse.
Carlos Henrique Assis, de 48 anos, dono do Bar Caíque, perdeu a mulher, Elizabeth Soares de Oliveira, de 45, com quem estava casado havia 30 anos. "Eu não estava lá, tinha ido comprar carne. Se estivesse, também teria morrido", lamentou. "Vou fazer o quê? Tem que ter coragem para continuar. Deus vai saber o meu destino." Uma funcionária do bar, Kênia Modesto Dias, de 27, que foi baleada na boca, está internada em estado grave no Hospital da Posse.
Criado na região, Carlos Henrique Assis relatou uma série de abusos cometidos por policiais que atuam na segurança do local. "Eles chegam aqui, colocam as pessoas com a cara na parede e batem em todo mundo", afirmou.
DÍVIDA
O marceneiro Jailton Vieira da Silva, de 25 anos, também morreu no bar. Ele passou lá para pagar uma dívida de R$ 2, logo após chegar do trabalho. "Quando ouvi os tiros, senti que tinha acontecido alguma coisa com ele", disse Luciana Souza da Silva, de 30, irmã de Silva. "Meu marido foi até o bar ver os corpos, mas eu não tive coragem." A dona de casa Magna de Souza Coutinho, de 52, teve os dois filhos assassinados: Luciano, de 31, e Lenilson, de 25. Eles estavam na porta de casa, no bairro Corumbá, em Nova Iguaçu, quando os atiradores passaram. Correram e foram seguidos pelos atiradores até dentro da residência.
"Minha nora, que estava com minha neta de 2 anos no colo, só foi poupada porque se ajoelhou no chão e implorou pela vida," contou ela.
As famílias passaram o dia no Instituto Médico-Legal (IML) de Nova Iguaçu à espera de notícias sobre a liberação dos corpos. Uma espécie de mutirão, envolvendo técnicos de Nova Iguaçu, Duque de Caxias e do Rio de Janeiro, foi montado para agilizar a conclusão das necropsias.
Os enterros começaram a ser realizados ontem à tarde e continuarão hoje. Entre as vítimas, duas, Calupe Florindo Ferreira, de 64, e José Augusto Pereira, de 38, tinham antecedentes criminais.