Título: Leilão não cobre demanda de energia
Autor: Renée Pereira
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/04/2005, Economia, p. B1

Depois de uma maratona de quase 19 horas, o Ministério de Minas e Energia conseguiu concluir o segundo leilão de energia produzida por usinas existentes às 4h55 da manhã de ontem. Apesar do tempo, o processo terminou sem atender à demanda total do mercado por falta de oferta. Foram vendidos apenas 1.325 megawatts (MW) médios de energia, por R$ 7,7 bilhões, em contratos de oito anos. O volume, no entanto, atende a apenas cerca de 50% da necessidade informada pelas empresas no ano de 2008. A demanda de 2009 não foi coberta. Isso significa que novos leilões terão de ser feitos para suprir a necessidade das distribuidoras, que devem estar 100% contratadas e hoje não estão. 'Queremos todas as questões resolvidas ainda neste ano', afirmou a ministra de Minas e Energia, Dilma Rousseff.

O processo foi conturbado.

Confinados em suítes individuais, no Hotel Grand Meliá World Trade Center, em São Paulo, sem acesso a nenhum tipo de comunicação, a não ser com a comissão do evento, os representantes das 15 empresas que participaram do leilão só puderam deixar o local por volta das 5 horas da manhã de domingo.

Quem estava de fora só via o resultado de cada rodada, de um total de 59, num telão instalado no Centro de Convenção do hotel.

Mas ninguém conseguia entender os resultados, divulgados a cada 15 minutos. O que mais intrigava era a constante queda nos preços dos contratos a partir de 2009, enquanto 2008 não se movia.

A explicação só veio ontem com a entrevista da ministra. Segundo ela, logo no início do leilão, a oferta de energia informada pelos vendedores, de 7.300 MW médios, foi reduzida em 50%.

O que obrigou o sistema a diminuir a demanda pela metade. 'A partir deste momento sabíamos que o leilão seria de apenas um produto, pois não haveria oferta suficiente para os dois anos', comentou a ministra.

Nessa situação, diz ela, deve-se de atender ao período mais próximo, no caso 2008.

Uma das explicações para a retirada de 50% da oferta pode ser o contrato de eletricidade do Brasil com a Cien, que prevê a importação de 2 mil MW de energia da Argentina.

Com a crise energética do país vizinho, esse volume de eletricidade foi reduzido.

No caso de Furnas Centrais Elétricas, por exemplo, o fornecimento de 700 MW previsto no contrato caiu para 200 MW, informou o presidente da estatal, José Pedro Rodrigues.

Isso prejudicou a estratégia da companhia no leilão, que preferiu retirar a oferta. A estatal não vendeu nenhum MW.

A Companhia Energética do Paraná (Copel) também tem contrato com a Cien. No leilão, ela vendeu só 80 MW.

Outras empresas, como as privadas Tractebel e Duke Energy, saíram do evento sem nenhum contrato. As estatais Companhia Hidro Elétrica do São Francisco (Chesf) e Companhia Energética de São Paulo (Cesp) foram as que mais venderam no leilão: 450 MW e 170 MW, respectivamente.

PRODUTO EXTINTO

Algumas empresas insistiram na estratégia de vender a energia apenas em 2009 - o que pode ser justificado por volumes que estariam livres apenas ao final de 2008. Mas, com o decorrer do processo e o preço despencando para níveis próximos ao do último leilão, muitos retiraram as ofertas. Com isso, o sistema foi ajustando a demanda à oferta, mas nunca chegava num ponto comum.

O resultado era sempre o recuo dos preços de 2009, que já haviam caído de R$ 104,00 para R$ 63,30 - números que deixavam os representantes das empresas sem entender nada.

Para aumentar o clima de tensão, às 22h10, o leilão foi suspenso. Mais tarde viria a notícia de que a interrupção havia ocorrido por problemas técnicos e o leilão seria retomado às 23h35. Quando tudo parecia entrar na normalidade, na 46.ª rodada, às 23h50, os últimos MWs foram retirados de 2009.

Sem oferta, o produto foi fechado sem vender nada.

Com isso, os vendedores voltaram suas atenções para o produto de 2008, que ainda estava aberto. Praticamente um novo leilão foi iniciado. A maratona demoraria mais 14 rodadas para chegar ao fim. Com isso, o preço da energia para os contratados iniciados em 2008 fechou em R$ 83,13, com queda de 16,03% em relação ao preço inicial de R$ 99,00. 'É um valor bastante adequado e aderente ao primeiro leilão e tende a se aproximar do custo marginal de expansão.'

A ministra afirmou ainda que os leilões deixarão de oferecer vários produtos de uma vez e farão a venda separada por ano.

Segundo ela, o ministério começará a formatar os próximos eventos, inclusive para cobrir a demanda não atendida nos dois leilões e de 2010.