Título: Expansão do PIB em 4% pode gerar 3,1 milhões de empregos este ano
Autor: Marcelo Rehder
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/04/2005, Economia, p. B3
A liberalização do câmbio, em 1999, multiplicou por três a relação entre o crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) e a geração de empregos no Brasil. Entre 1995 e 1999, para cada ponto porcentual de crescimento do PIB, o emprego crescia 0,59%. D e 1999 para 2003, essa taxa saltou para 1,68%. Mantida esta proporção, o País pode ganhar até 3,1 milhões de postos de trabalho este ano, somando 85,4 milhões de ocupados - 3,7% mais do que em 2004. 'Cada ponto porcentual de acréscimo no PIB corresponde à criação de 775 mil empregos. Considerando a projeção do governo de crescimento de 4% para este ano, nós teríamos mais de 3 milhões de novas ocupações no País', diz o economista Márcio Pochmann, pesquisador do Centro de Estudos Sindicais e de Economia do Trabalho (Cesit) da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e autor do estudo da relação entre a expansão do PIB e a criação de empregos.
Há alguns obstáculos no caminho da ampliação do mercado de trabalho. Um deles é a recente apreciação do real em relação ao dólar. Pochmann admite que, se a paridade entre as duas moedas pender ainda mais para o real, poderá cair a estimativa para o número de novos postos de trabalho.
O câmbio mais favorável permitiu a multiplicação das exportações desde 1999. No ano passado, as vendas externas brasileiras alcançaram o recorde de US$ 96,4 bilhões.
Animados com esse cenário, os exportadores lideraram o crescimento da economia, resultando na criação de mais postos de trabalho, com efeitos positivos sobre toda a economia.
Na outra direção, há também o estimulo indireto à substituição de importações. Com o dólar mais caro, as empresas passam a produzir localmente alguns produtos que antes eram comprados no exterior, gerando mais empregos aqui.
Para analisar o comportamento da ocupação, Pochmann tomou por base a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad), do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). De 1995 a 1999, quando o câmbio ainda era fixo, o nível de ocupação apresentou um crescimento médio anual de 1,01%. De 1999 para 2003, essa taxa de crescimento pulou para 2,29%, já refletindo os efeitos do câmbio flutuante.
Além de registrarem crescimento econômico pequeno, os dois períodos analisados exibiram variações do PIB muito próximas uma da outra. No primeiro, o aumento foi de 1,7%, como média anual, e no segundo, de 1,96%. 'O câmbio livre fez toda a diferença', afirma o economista da Unicamp.
O metalúrgico Waldir Sebastião dos Santos, de 55 anos, se beneficiou do aquecimento do mercado de trabalho. Demitido em dezembro, em menos de três meses voltou a trabalhar. Foi contratado no início de março pela Ergomat, fabricante de máquinasferramenta com sede na capital paulista, como operador de equipamentos de usinagem de precisão, área que tem poucos profissionais disponíveis. 'Foi uma surpresa a rapidez da minha recolocação, levando também em conta a minha idade', diz Santos.
Desde o início do ano, a Ergomat fez 12 contratações e tem ainda 6 vagas a serem preenchidas. A empresa, com 290 funcionários, fornece máquinas que fabricam peças e componentes para quase todos os tipos de produtos manufaturados, de parafusos a automóveis e aviões. 'A demanda está bastante aquecida', afirma seu presidente, Andreas Meister.
TERMÔMETRO
A fábrica da Ford em Camaçari (BA) é um bom termômetro.
No mês passado, a unidade bateu o recorde de produção desde o início de suas operações, em 2001. Foram 21.320 unidades dos modelos Fiesta e EcoSport. Com esse volume, a empresa opera no limite de capacidade de produção, de 912 veículos por dia. Segundo o gerente de Logística da Ford América do Sul, Edson Molina, a unidade funciona 22 horas por dia, de segunda a sábado.
Desde agosto, quando teve início um terceiro turno de trabalho, foram contratados 1,7 mil funcionários, dos quais 700 pela própria Ford e os demais, pelos fornecedores de autopeças que atuam dentro da linha de montagem. Ao todo, o complexo industrial tem 7,8 mil empregados.
A montadora projeta para este ano produção de 252 mil veículos na unidade baiana, volume antes previsto para alcançar apenas em 2006. 'Com a criação do terceiro turno e melhorias no processo produtivo, conseguimos ampliar a produção diária de 850 para 912 carros por dia', diz Molina.
Segundo ele, 40% dos veículos são exportados.
Não há, por enquanto, planos de ampliação da fábrica. O diretor-técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos SócioEconômicos (Dieese), Clemente Ganz Lúcio, lembra que o crescimento de 5,2% do PIB no ano passado levou muitas empresas a um nível muito próximo do limite de produção.
'A gente não sabe ainda qual é a ociosidade nas empresas, mas muitas devem necessitar de novas contratações, mesmo que a expansão do PIB fique abaixo de 2004', afirma.
O presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp), Cláudio Vaz, diz que a ociosidade diminuiu, mas não muito, já que as empresas retomaram os investimentos nos últimos dois anos.
' A utilização da capacidade instalada nas fábricas hoje está ao redor de 84%, em média. É um bom nível, que vem sendo mantido, mesmo com o crescimento da demanda, graças aos investimentos'.