Título: E o besteirol continua
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Fonte: O Estado de São Paulo, 29/04/2005, Notas e Informações, p. A3
E sta página, antes de mais nada, pede a compreensão dos leitores para os freqüentes comentários - como este, que infelizmente não será o último - sobre os despautérios do presidente Lula, aos quais, como se já não fossem suficientemente desmoralizantes para o País, se deve acrescentar a assustadora escalada de opiniões oposicionistas do seu vice José Alencar a respeito da cruzada nacional que supõe possível e desejável contra a política de juros do Banco Central. Mas o Estado pecaria por omissão se deixasse de se manifestar, ainda uma vez, em relação aos desatinos verbais do chefe do governo e do seu primeiro substituto eventual. Especialmente no caso do primeiro - com a sua grosseira teoria da maléfica influência dos traseiros acomodados sobre o custo dos empréstimos pessoais -, o besteirol ultrapassou esta semana limites que se imaginariam insuperáveis.
Nada, porém, segura este presidente quando ele trata de desfilar a sua robusta desinformação sobre ampla gama de assuntos de interesse público. Na segunda e na terça-feira, o tema dessa contínua exibição de despreparo foram as taxas de juros. Na quarta, foi o projeto do biodiesel - a adição de 2% de óleos vegetais ao derivado de petróleo. O projeto é elogiável, mas só por um completo descolamento da realidade se poderia dizer, como fez Lula, em mais um de seus arroubos, que o biodiesel será "a redenção do País": primeiro, ao dispensar as importações de petróleo e criar enormes excedentes exportáveis do produto; e, depois, quando a mistura substituir, no Brasil e no mundo, o petróleo em extinção. Por perto, sintomaticamente, o marqueteiro Duda Mendonça, o media trainer para a sua primeira conferência de imprensa formal em 28 meses de governo, marcada para esta manhã.
Enquanto o presidente, em Belém, cantava a auto-suficiência brasileira em matéria de combustível para toda a frota brasileira de ônibus e caminhões, em Brasília outros contribuíam entusiasticamente para a cota diária de sandices que o oficialismo impõe à sociedade. O presidente da Câmara dos Deputados, Severino Cavalcanti, a quem o Criador parece ter poupado do sentimento de autocensura, anunciou que irá criar uma comissão para descobrir como subtrair do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central, a prerrogativa de fixar a taxa básica de juros da economia. A Selic seria definida, a cada vez, por uma versão nativa - e única no mundo - dos Estados gerais da França pré-revolucionária. No caso, a nobreza, o clero e o povo seriam o Copom, mais a Câmara, mais o Senado, mais representantes da sociedade. Enfim, "uma coisa ampla que atinja todos os setores", arrebatou-se Severino.
Ele também apresentou projeto de lei para obrigar o presidente do Banco Central a explicar ao Congresso as decisões do Copom. Esse é um direito do Legislativo, embora, como observou o vice-líder do governo, Beto Albuquerque, do PSB, para saber por que o Copom muda ou mantém a taxa Selic, basta a ata que se segue às suas decisões. "É só ler com atenção", alfinetou, "que entende." Sobre o coletivo proposto para manejar esse instrumento de política monetária, nunca antes adotado em parte alguma, o deputado comentou que "a continuar assim, o próximo anúncio de Severino poderá ser um projeto revogando a lei da gravidade". Por isso mesmo, não há que se espantar com os disparates severinos. A coisa muda de figura, no entanto, quando a enormidade recebe imediatamente o aval do vice-presidente da República. "Eu concordo com o presidente Severino", afirmou Alencar. "É preciso que haja um novo jeito."
A primeira reação de qualquer brasileiro com a cabeça no lugar decerto será dar de ombros. Assim como Lula, diga o que disser, não revolucionará o mundo com o biodiesel, o máximo que a dupla Alencar-Severino conseguirá fazer é barulho inconseqüente. Nenhum parlamentar dotado de senso de responsabilidade - por mais crítico que seja da patente inadequação das altas dos juros - levará a sério a extravagante idéia do conselhão, que sujeitaria à politicagem e a interesses setoriais uma questão eminentemente técnica. Ainda assim, preocupa que o presidente, dia após dia, pense tanto na reeleição e diga tantas inconveniências, e o vice não se canse de investir rombudamente contra o que lhe parece a causa de todas as dificuldades do Brasil. Sabe-se lá onde isso pode desembocar.