Título: 'Os maus policiais vão pagar caro'
Autor: Luiz Maklouf Carvalho
Fonte: O Estado de São Paulo, 08/04/2005, Metrópole, p. C3

O tenente-coronel Paulo César Lopes, comandante do 15.º Batalhão da Polícia Militar, acredita que os policiais corruptos sejam minoria e defende providências enérgicas contra eles. "Os maus policiais vão pagar caro pelos seus erros." Ele acha, também, que a polícia do Rio vive "um momento espetacular". A seguir, os principais trechos da entrevista: O sr. está sofrendo represálias?

Represálias e ameaças. Só hoje (anteontem) foram duas. Estou sendo alvo de um ataque maciço.

Como elas chegam?

Via rádio. "O coronel Lopes não passa de sexta-feira." Ou "o coronel Lopes vai cair". Um dia depois que deixaram os cadáveres na vizinhança do quartel, e jogaram a cabeça aqui dentro, nós tivemos um telefonema que está sendo objeto de processamento. Já está identificado o autor da ligação.

O que disseram?

Que a próxima cabeça a ser cortada seria a de um policial.

Onde o sr. situa essas represálias?

Em um número mínimo de policiais militares vinculados ao mal. A grande maioria é de boa índole e bem intencionada .

Que interesses o sr. considera estar atrapalhando?

Não sei. Na segunda-feira fiquei pensando nisso, e nem dormi. Por que isso? Por que pegar duas pessoas mortas e jogar aqui? Não sei. Acredito que seja algo macro. O sr. concorda?

Essa máquina de maus policiais, principalmente a envolvido com o tráfico, movimenta uma fortuna...

É verdade. Eu sou risco. E eles sabem que se cair na minha mão eu implodo.

Bagrinhos à parte, o sr. já viu algum oficial dessa banda podre ser punido com o rigor da lei?

Eu respondo por mim. Eu aqui puno oficiais. Vários já foram punidos. Há umas duas ou três semanas eu tive cinco oficiais cumprindo punições aqui, por falhas administrativas.

Aqui no 15º BPM o sr. não encontrou nenhum oficial ligado ao crime organizado?

Não ficam comigo.

Já não estavam quando o sr. chegou ou os botou para fora?

É claro que eu botei muitos pra fora. Muitos, do comando anterior. Não comunga na minha cartilha, vai embora.

Vão embora do seu comando, mas ficam ocupando outros postos. Qual é a seriedade deste combate, afinal, se nada acontece com esses oficiais?

Eu acredito que acontece. Mas acho que a corporação tem um mecanismo que não está usando adequadamente. É o processo administrativo disciplinar voltado para o oficial. Permite que ele seja demitido ou reformado. Isso deve ser utilizado de uma forma mais efetiva.

O sr. assumiu a unidade em julho, substituindo um comando que foi afastado depois de denúncias de corrupção. O que havia antes que o sr. chegasse?

Balbúrdia administrativa e focos de corrupção que foram descartados de imediato. Hoje é uma unidade militar.

Qual o tamanho da corrupção?

Segundo as denúncias, que estão sendo apuradas pelo Ministério Público, ela estava situada no transporte alternativo. Havia um número significativo de patrulhas de trânsito, quatro, o que era um foco de corrupção. Só ficamos com uma. Começamos a exercer um controle rigoroso sobre a tropa. Essas medidas de saneamento surtiram efeito positivo.

Por exemplo.

Estabeleci uma principiologia. São aqueles cinco princípios que eu mandei pintar na parede da entrada: legalidade, probidade, eficiência, respeito à dignidade humana e combatividade.

A grande dificuldade é compatibilizar combatividade com respeito à dignidade humana.

Não tem dificuldade nenhuma. A lei autoriza a legítima defesa. Para se proteger, pode matar. No mês passado foram nove mortos em confronto.

E quanto PMs do seu batalhão?

Nenhum morto. Mas tivemos policiais baleados.

Que mudanças o sr. fez?

O policial militar tem que cumprir rigorosamente as ordens emanadas do comando. É inadmissível ter uma polícia sem controle disciplinar.

E por que se chegou a uma situação em que esse controle foi perdido?

Por falta de comando. Não sou linha dura, mas cumpro a lei.

Por que outros não cumprem?

Por omissão. Minhas orientações têm que ser cumpridas. É isso que caracteriza uma unidade militar: disciplina e hierarquia. São essenciais para que a prestação do serviço seja adequado ao desiderato (aspiração) da sociedade. Se não houver esse controle a gente vai verificar que os desmandos ocorrem em todo o País. Sem controle nós não temos polícia, temos bando.

Por que parte da polícia, a chamada banda podre, se associa ao crime organizado?

Falta de controle, repito. Se tiver comandante controlando e acenando com a possibilidade de punição, de processos disciplinares que podem levar à expulsão, isso cria mecanismos preventivos. Agora, se houver leniência do comando com o mal, o mal vai prosperar. Eu aqui não sou leniente com o mal. Eu combato o mal. Os maus policiais aqui vão pagar caro pelos seus erros.