Título: Portugal se reúne com equipe, mas posse só será em maio
Autor: Isabel SobralLu Aiko Otta
Fonte: O Estado de São Paulo, 30/04/2005, Economia, p. B4

Raul Velloso elogia mudanças no Ministério da Fazenda e prevê 'o maior arrocho de caixa da história do País' Murilo Portugal, o novo braço direito do ministro da Fazenda, Antonio Palocci, teve ontem uma primeira reunião com sua equipe. Mas ele só assumirá formalmente suas novas funções em meados de maio, quando devem sair os decretos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva formalizando as mudanças. Antes disso, Portugal estará em Washington preparando sua mudança. A mudança no Banco Central poderá levar ainda mais tempo. Para assumir a Diretoria de Estudos Especiais, Alexandre Tombini terá de ser sabatinado pelo Senado. A alteração na equipe não deverá provocar mudanças na condução da política econômica, segundo avaliaram o ex-ministro da Fazenda Mailson da Nóbrega, da Tendências Consultoria Integrada, e o consultor Raul Velloso. Os dois acham que, ao contrário, Palocci conseguirá a partir de agora ainda mais eficiência na linha que já vinha sendo seguida.

"Será o maior arrocho de caixa da história do País", disse Raul Velloso. "Com o Joaquim Levy e Murilo Portugal, não vai ter para ninguém." Levy é o secretário do Tesouro Nacional, conhecido nos ministérios por ser um intransigente defensor do caixa federal. É a mesma linha de atuação de Portugal, que quando foi secretário do Tesouro, nos governos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso, ganhou apelido de "doutor No", pela quantidade de "nãos" que distribuía pelo governo. Palocci terá agora dois assessores diretos para manter o cofre fechado.

"Portugal é a maior aquisição que o ministro Palocci já fez para sua equipe", afirmou Mailson. Ele lembrou que, dada a larga experiência de Portugal no governo, é um perfil mais adequado para a função de secretário-executivo do Ministério da Fazenda, um cargo cuja função principal é pôr em funcionamento as engrenagens da burocracia. "Ele detém maior conhecimento dos meandros do setor público e é mais articulado no relacionamento com o Congresso, os Estados e diferentes áreas do governo federal."

Velloso também achou positiva a ida de Bernard Appy para a Secretaria de Política Econômica (SPE). Atualmente, Appy é o secretário-executivo e cederá o posto a Portugal. "Appy é um economista com o perfil formulador, necessário à SPE. Na secretaria-executiva, ficava muito envolvido com a papelada." Appy vai para o lugar de Marcos Lisboa, que pediu demissão alegando motivos pessoais.

"A saída de Lisboa certamente implicará diminuição do ritmo e coerência das reformas microeconômicas", lamentou o Edward Amadeo, da Tendências. Amadeo foi titular da SPE no governo FHC, após um período como ministro do Trabalho.

No governo, Lisboa se ocupou de temas como a Lei de Falências, os novos instrumentos para financiar o setor habitacional e participou da formulação do novo modelo do setor elétrico, entre outras medidas da microeconomia. Eram medidas da Agenda Perdida, da qual foi um dos elaboradores. A idéia é que Appy dê prosseguimento ao trabalho.

"Lisboa é o tipo de economista mais necessário no início do governo", disse Velloso, referindo-se à elogiada capacidade de formulação do secretário. "Fim de governo é para burocratas que dão chute na canela, é tocar o dia-a-dia."