Título: Idéia de ficar com a cara do governo assusta petistas
Autor: Vera Rosa
Fonte: O Estado de São Paulo, 09/04/2005, Nacional, p. A4

Insatisfação com proposta de renovar programa vem de todos os lados do partido

O presidente do PT, José Genoino, afirma que quer promover uma "repactuação interna" no partido para dar conta dos próximos dois anos. Nos últimos dias, ele recebeu inúmeros telefonemas de petistas assustados com as notícias de que o PT quer ficar com a cara do governo Lula. É isso mesmo, mas Genoino tenta pôr panos quentes na insatisfação vinda de todos os lados. "Nossa idéia é renovar o programa do PT, mas isso não pode ser feito na base da agitação e da palavra de ordem", argumenta. "Afinal, não somos mais oposição. Somos governo. E queremos construir um projeto duradouro."

Pré-candidato da corrente Articulação de Esquerda para a disputa com Genoino, Valter Pomar diz que o PT, para sobreviver, não pode se confundir com nenhum governo. "Se os moderados apresentarem como proposta de programa máximo do PT o programa mínimo do governo vão quebrar a cara", afirma Pomar, que hoje é um dos vice-presidentes do partido. "Há duas possibilidades: ou eles perdem essa briga ou o PT acaba."

Da mesma forma que os moderados, a esquerda do PT também está escrevendo suas teses. No jargão petista, a tese é o documento que trata do ideário político do partido para um determinado período. O último Encontro Nacional do PT ocorreu em dezembro de 2001, em Olinda (PE), e ficou famoso por pregar a ruptura com o modelo econômico. Na campanha de 2002, porém, Lula foi obrigado a revogar aquele documento com a Carta ao Povo Brasileiro, editada em junho.

Para o deputado Chico Alencar (PT-RJ), do bloco parlamentar de esquerda, o PT deveria aproveitar seu próximo encontro para fazer uma reflexão sobre sua prática política. "Queremos discutir as contradições que vivemos e que não são poucas. Precisamos definir com que cara o PT vai aparecer na disputa presidencial de 2006", diz Alencar.

Integrante da ala rebelde, Alencar observa que um partido "socialista democrático", como se define o PT, não pode defender um ajuste fiscal que remunere ainda mais o capital, prejudicando o trabalho. "Esse processo de metamorfose está muito acelerado", concorda o deputado Paulo Rubem Santiago (PT-PE). "O risco que corremos é o Lula se reeleger presidente e o partido terminar em frangalhos."

OPOSIÇÃO

Até mesmo na oposição o documento dos moderados petistas desperta curiosidade. O líder do PSDB no Senado, Arthur Virgílio (AM), não perdeu a chance de provocar o governo ao saber da reunião no Rio. "O PT é um partido tão surrealista que precisa fazer reunião para decidir que tem juízo."

Não menos irônico, o líder do PFL, José Agripino Maia (RN), diz que a proposta do campo majoritário, com a defesa explícita do equilíbrio fiscal, é "nitroglicerina pura", matéria-prima para explodir a legenda. "É o mesmo que pegar 50 Heloísas Helenas que estão quietas e armá-las de tacape", comparou, numa referência à senadora radical que, expulsa do PT no fim de 2003, fundou o PSOL.