Título: 'Vamos jogar pesado contra o déficit da Previdência'
Autor: Mariana Caetano
Fonte: O Estado de São Paulo, 03/05/2005, Nacional, p. A6
Na Fiesp, presidente Lula diz que será preciso competência para que setor deixe de ser bolsão de prejuízo ao Orçamento da União O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou ontem que vai "jogar pesado" no combate ao déficit da Previdência para garantir o equilíbrio das contas públicas e o crescimento do País. Todas as ações sociais do governo, o esforço para evitar a vulnerabilidade e "aventuras" na condução da economia "não serão suficientes", disse Lula, se o governo não tiver a "competência de fazer com que o déficit da Previdência diminua". "Nós vamos jogar pesado e está anunciado que vamos conter esse déficit e fazer com que a nossa Previdência passe a ser, definitivamente, se não superavitária, também não um bolsão de prejuízo ao orçamento da União como tem sido nos últimos anos", discursou Lula para uma platéia de empresários reunidos na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, durante as comemorações do aniversário de cinco anos do jornal Valor Econômico.
O governo federal prevê para este ano um rombo de R$ 38 bilhões; em 2006 serão R$ 43,4 bilhões. Ao assumir o Ministério da Previdência, em março, Romero Jucá anunciou uma série de medidas para tentar enxugar em R$ 20 bilhões o déficit do Instituto Nacional de Seguro Social (INSS) nos próximos dois anos. O governo editou a Medida Provisória 242, que, entre outras coisas, alterou as regras para a concessão do auxílio-doença, dificultando o acesso ao benefício. A iniciativa enfrenta resistência entre os partidos de oposição, que já recorreram à Justiça contra a MP.
Lula não citou ontem o ministro Jucá - alvo de denúncias de corrupção -, mas declarou que a reforma da Previdência já aprovada no Congresso tem impacto nas contas públicas a médio prazo.
O presidente referiu-se à Previdência depois de destacar que não fez nenhuma "aventura" no governo, muito menos motivado por interesses eleitorais. Lembrou que, às vésperas da última eleição municipal, o Banco Central elevou a taxa de juros. "No Brasil, normalmente as pessoas esticam a corda até passar as eleições. Passou, solta a corda e fica quem quiser com o prejuízo", afirmou.
EUA
Em mais uma defesa de sua política externa, Lula disse que os empresários não podem ficar "chorando" por causa das dificuldades na concorrência com produtos chineses ou por causa da cotação do dólar. Insistiu que o País precisava procurar parceiros comerciais alternativos, mas avisou que dedicará mais atenção às maiores potências econômicas. "Precisamos agora nos dedicar um pouco mais a fazer com que seja fortalecida nossa relação com os Estados Unidos no âmbito comercial e ao mesmo tempo com a União Européia", disse, para mais tarde declarar que "não seria louco" de entrar em confronto com os EUA. "O que nós queremos é tratá-los como eles nos tratam."
Na platéia estavam seis ministros, entre eles Palocci e o ministro-chefe da Casa Civil, José Dirceu. O presidente foi aplaudido depois de fazer um mea culpa sobre suas posturas em relação ao FMI. Hoje, sua postura é muito menos "ideologizada": "Eu que passei parte da minha vida gritando fora FMI. Mas de repente sou presidente da República e saímos do FMI pela porta da frente, sem nenhum grito. Se um dia precisar, voltaremos de cabeça erguida. Não precisa fazer discurso ideológico".