Título: Em Gana, presidente se imagina na Bahia
Autor:
Fonte: O Estado de São Paulo, 13/04/2005, Nacional, p. A11
"Estou com cara de rei?", perguntou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, enrolado em uma kenté africana, uma manta delicadamente bordada a mão, cujo valor chega a U$ 300, que ganhou de presente durante a festa feita em sua homenagem por cerca de 250 descendentes de escravos que foram levados para o Brasil no final do século 17 e retornaram depois a Gana. Lula ficou comovido com a homenagem e sentiu-se em casa - particularmente na Bahia. "É como estar no Brasil", observou. Foram duas horas de descontração e muita animação depois de dois dias na Nigéria envolvido em assuntos menos emocionantes como equilíbrio da balança comercial e acordos bilaterais. A festa aconteceu na sede da embaixada brasileira em Acra e reuniu representantes da comunidade brasileiro-ganense Tabom.
Os escravos voltaram à África depois de comprarem sua liberdade no Brasil. Como só sabiam falar português, quando chegaram a Gana usavam o cumprimento "como está?"e a resposta informal "tá bom". Esse foi o nome como os escravos passaram a ser chamados no retorno ao país. "Estamos felizes pois hoje podemos nos considerar completamente brasileiros", comemorou o rei Nii Azumah V, da tribo Tabom, que ganhou um trono de presente de Lula .
O presidente já chegou aos jardins da embaixada vestido a caráter e, como havia prometido ao cerimonial, com uma túnica branca batakari, típica da região.
Como na chegada ao aeroporto da capital de Gana, assistiu a um ritual em que o representante da tribo joga gim no chão para invocar os deuses e desejar boas-vindas. Seria como jogar cachaça para o santo.
A recepção dos Tabom foi tão animada e divertida que os ministros Celso Amorim e Gilberto Gil não se contiveram e entraram na dança, como também a ex-ministra Benedita da Silva. "Eu não posso", respondeu Lula ao ser perguntado se não cairia no samba. Antes, fora abraçado e beijado pelas africanas da tribo, que dançavam sem parar ao som de atabaques e outros instrumentos de percussão.
Ao mesmo tempo, Lula prometeu ajuda para restaurar a Casa do Brasil em Acra para servir como centro de documentação para a comunidade Tabom.
"É a melhor homenagem que se pode fazer a quem tanto contribuiu com o Brasil", disse Lula, citando a feijoada e o samba como dois exemplos de cultura levada pelos escravos. O chefe de cerimônia africano não parava de gritar: "É um momento histórico".
A homenagem dos "retornados", como são chamados, aconteceu depois da reunião de Lula com o presidente de Gana, John Agyekum Kufuor, que o recebeu com pompa no aeroporto de Acra. Debaixo de forte calor, Lula participou da cerimônia militar e depois foi conhecer o palácio do governo, às margens do Oceano Atlântico, onde foram assinados acordos para estabelecer linhas aéreas entre os dois países e consultas políticas.