Título: Lula chora e pede perdão à África por escravidão no Brasil
Autor: Cida Fontes
Fonte: O Estado de São Paulo, 15/04/2005, Nacional, p. A9

No momento mais emocionante de sua viagem de cinco dias à África, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva teve ontem uma reação inesperada ao visitar o local onde funcionou um entreposto de venda de escravos na Ilha Gorée, no Senegal. "Perdão pelo que fizemos aos negros", disse Lula, repetindo o gesto do papa João Paulo II, durante uma de suas visitas ao continente. Antes disso, dirigindo-se ao presidente do Senegal, Abdoulaye Wade, Lula afirmou que não tinha responsabilidade pelo que aconteceu nos séculos 16, 17 e 18, quando milhões de africanos foram levados para as Américas. "Quando se comete um grave erro histórico, como o que aconteceu com os judeus e os negros, o papa já nos ensinou que é fácil pedir perdão", comentou Lula, dentro da casa de escravos, restaurada pela Unesco em 1978. "É como dor de cálculo renal. Apenas quem tem pode dizer como é. Só estando ali para ter a dimensão do que as pessoas sentiram por 300 anos", observou ele, que viu seus ministros chorarem no local.

Wade ouviu comovido a manifestação de Lula, concordando que ambos não tinham responsabilidade pelo passado, mas que é importante reparar as feridas. Lula, que durante o discurso de Wade enxugou os olhos com as mãos, foi chamado de primeiro presidente negro do Brasil. Wade pediu, ainda, que ele continue atuando para o fortalecimento da África: "Não desista, mesmo que isso provoque ciúmes de outros presidentes. E considere-se um africano."

Lula ficou chocado ao conhecer a casa onde viviam os escravos. Ali eram comprados por mercadores europeus e enviados a 8 países, entre eles o Brasil.

A ex-ministra Benedita da Silva, que recentemente descobriu que seus antepassados saíram de Senegal, não conseguiu conter as lágrimas. "A história da escravidão é tratada muito por cima. Os escravos eram como figuras, ou seja, não eram seres humanos, eram transformados em números."

Para Lula, é importante que as crianças brasileiras aprendam que a África não é industrialmente atrasada porque o africano não tem competência nem inteligência. "É porque durante três ou mais séculos deste território as pessoas mais fortes, saudáveis e com mais condições de trabalhar deixaram este continente. E sabe Deus quantos milhões saíram por esta porta."

O ministro da Cultura, Gilberto Gil, cantarolou a música La Lune de Gorée, que compôs com Capinam. A letra em francês diz que a pele dos negros é uma bandeira que representa o sofrimento, mas que é a mesma pele que cobre todas as pessoas do mundo. A apresentação comoveu Wade, que o abraçou. Ao final da visita, Gil não conseguiu conter o choro.