Título: Parari, um dos menores PIBs, só vive de ajuda
Autor: Wilson Tosta Luciana Nunes Leal Adriana Chiarini
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/05/2005, Nacional, p. A8

Na cidade do sertão da Paraíba, de 1.538

habitantes, tudo depende do poder público O pequeno comércio vende na base do fiado, a população sobrevive das 292 aposentadorias rurais, da prefeitura, que emprega 176 pessoas, da agricultura de subsistência e dos programas governamentais de distribuição de renda - Fome Zero, Bolsa-Escola, Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (Peti), seguro-safra (quando a seca destrói os plantios de milho e feijão). "Muitos passam necessidade, fome mesmo não", diz o presidente do Sindicato dos Trabalhadores Rurais do município emancipado em 1997, José Aristeu de Oliveira.

TRANQÜILIDADE

À exceção do posto de saúde e das escolas, sempre freqüentados, a cidade parecia deserta na segunda-feira pela manhã. Parte das lojas estavam fechadas e até a agência dos Correios cerrou as portas porque o funcionário Washington Luiz de Queiroz precisou sair para entregar algumas cartas. O silêncio na cidade foi quebrado apenas por um rápido ensaio do trio Os Regionais, liderado pelo sanfoneiro Luiz Carlos Ribeiro da Silva, de 42 anos, que trabalha como motorista da prefeitura à tarde, buscando e levando alunos que moram na zona rural.

Não há ambições dos moradores, que se mostram satisfeitos se conseguem o mínimo para sobreviver. Eles testemunham que não falta transporte escolar, nem para levar pessoas doentes para cidades maiores da região quando são necessários exames ou tratamentos mais complexos. Parari fica a cerca de 250 quilômetros de João Pessoa. A estrada é boa, com exceção do trecho de 21 quilômetros de estrada de barro que dá acesso a Parari.

Lucinete de Queiroz Moura, 24 anos, casada - o marido faz bico quando aparece -, um filho de 3 anos que passa um expediente na creche da prefeitura, recebe um litro de leite de saquinho diariamente e R$ 65 mensais do Fome Zero. Ela mora perto do pai, Inácio Avelino Aires, que de manhã trabalha no roçado de palma e milho e à tarde é vigia da creche. "Muita gente vive do Fome Zero", afirma Lucinete que, como os pais, também junta plástico e ferro velho para vender e arranjar mais um dinheirinho.

SEM SUCESSO

Evanir, de 38 anos, mulher do agricultor Inácio Félix de Oliveira, de 42, que trabalha na roça de um amigo como meeiro, não teve a mesma sorte de Lucinete. "Já tentei várias vezes e não consigo o Bolsa-Família", conta ela, que é mãe de um bebê de 1 ano e 3 meses. "A gente sobrevive não sei como."

Mais do que bicicletas, as motos estão presentes em Parari. Maria Madalena Ribeiro, de 47 anos, e o marido José Ribeiro, de 67, ambos aposentados rurais, fazem suas compras no Mercadinho Queiroz, o mais sortido da cidade, e usam a moto para sair do sítio onde moram, na zona rural, para pagar o fiado e levar mais mercadorias.

Luiz Aires de Queiroz, de 64 anos, é dono do mercadinho e um dos mais abastados da cidade. Com uma perna machucada por causa de um acidente no cavalo, ele gosta mesmo é de agricultura e de criar gado e cabra.

O comércio, segundo ele, é para empregar as três filhas e os genros, que gerenciam o mercadinho em Parari e um outro em Taperoá, município próximo e mais próspero, onde vivem os herdeiros e os netos. "A família é toda sustentada pelo mercadinho, dá para ir escapando", diz sua mulher, Maria Salete, que registra em um caderno as dívidas de cerca de 100 clientes assíduos de Parari. Maria Madalena deve R$ 250.