Título: No novo Provão, metade tira nota alta
Autor: Lisandra Paraguassú
Fonte: O Estado de São Paulo, 04/05/2005, Vida, p. A16
Entre os 1.427 cursos superiores avaliados pelo Enade, 50% obtiveram os melhores conceitos, 4 e 5; apenas 2,6% deles tiraram nota 1
O primeiro exame do ensino superior brasileiro feito no governo petista mostrou uma imagem melhor do que o esperado. O Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes (Enade), que substituiu o antigo Provão, classificou com conceitos 4 e 5 - os mais altos - a metade das 1.427 faculdades das áreas de Ciências da Saúde avaliadas, apesar de a média dos alunos continuar baixa. O exame mostrou que o ensino superior contribuiu pouco para a formação geral do estudante, embora tenha agregado conhecimento nos assuntos específicos da área. O Enade, ao contrário do Provão, é feito com uma amostra de estudantes que estejam terminando o primeiro ano de curso e outra dos que estão no último ano. A nota média é calculada a partir de uma fórmula que leva em conta as notas dos dois grupos em uma prova de formação específica e outra de formação geral. "O que podemos ver nesses resultados é um bom desempenho das instituições na formação para uma profissão, mas um péssimo desempenho na formação para a vida", disse o ministro da Educação, Tarso Genro.
Na formação geral, a média dos alunos iniciantes chegou a ser no máximo sete pontos maior do que a dos concluintes. Em 246 faculdades, os estudantes que começavam o curso chegaram a ter médias superiores às dos seus colegas formandos. Ao contrário, na formação específica a diferença é grande. Chega a crescer 162% no caso da Odontologia, o curso que agrega mais conhecimento.
Esses dados levaram o ministro a defender um dos pontos mais combatidos da reforma universitária proposta pelo governo, a criação de um ciclo básico antes de os estudantes passarem a estudar os temas específicos do seu curso. "Fica comprovada a necessidade do ciclo básico para dar essa formação mais geral aos estudantes."
O Enade criou dúvidas em outras áreas. Aparentemente, o sistema de ensino superior, pelo menos na área de Ciências da Saúde, não é tão ruim quanto se pensava após seis anos de Provão. Neste primeiro exame foram avaliados 2.184 cursos de 13 áreas diferentes, de Medicina a Fonoaudiologia. No entanto, apenas 1.427 receberam conceitos. Os demais não tinham ainda formandos, por serem cursos novos.
Das instituições que receberam conceitos, a metade teve os conceitos mais altos, enquanto 10,6% tiveram 1 e 2, os piores. As médias de acertos na área de formação específica em sete cursos - que já tinham sido avaliados no Provão - , apesar de, na maior parte dos cursos, ainda estarem abaixo de metade da prova, ainda são maiores do que no último Provão, realizado em 2003, com exceção de Odontologia, cuja média é praticamente a mesma, e Veterinária, um pouco inferior.
"Pode ser que o sistema não seja tão ruim quanto imaginávamos ou que essa prova, por ser a mesma para alunos de primeiro ano e formandos, seja mais fácil", disse Tarso. O Enade confirmou, no entanto, a tendência predominante nas avaliações anteriores: as universidades federais estão sempre entre os primeiros lugares. Das 13 áreas avaliadas, as federais foram melhor em 10 delas e suas médias são superiores às médias nacionais em todas elas.
O desempenho médio dos estudantes dessas universidades ficou 5,4 pontos porcentuais acima das estaduais - não participaram as Universidades de São Paulo (USP) e Estadual de Campinas (Unicamp) - e 10,8 pontos porcentuais acima das particulares. Os cursos de Odontologia e Medicina têm o menor número de conceitos baixos, enquanto na área de Serviço Social 29% dos cursos tiveram conceitos 1 e 2.
PERFIL
Terminar um curso superior, ao menos nas áreas de Ciências da Saúde, é mais fácil para estudantes brancos, com renda familiar acima de 10 salários mínimos e pais com formação superior. O perfil socioeconômico traçado no Enade, divulgado ontem pelo Ministério da Educação, mostra que apenas 26% dos estudantes de primeiro ano que fizeram a prova tinham renda familiar acima de 10 salários mínimos. Mas entre os que concluíram o curso eles representam mais de 35%.
Já o aluno típico das áreas de saúde é branco, com renda até 10 salários mínimos e mora com os pais. Tem conhecimento quase nulo de outras línguas além do português, não lê mais do que dois livros por ano e jornais ocasionalmente - o que ajuda a explicar o mau desempenho na prova de conhecimentos gerais do Enade.