Título: Aécio contesta versão de médicos sobre morte de Tancredo
Autor: Eduardo Kattah
Fonte: O Estado de São Paulo, 19/04/2005, Nacional, p. A7

A família do presidente Tancredo Neves classificou ontem de "mentirosas" e "ridículas" as informações da reportagem veiculada no domingo pelo Fantástico, da TV Globo, sobre a doença e morte de Tancredo. O governador de Minas, Aécio Neves (PSDB), neto de Tancredo, classificou como "despropositada" e "absolutamente absurda" a reportagem que dá conta de que seu avô tinha um tumor benigno (leiomioma), e não diverticulite aguda, como apontava o primeiro laudo médico. Nota assinada pelos três filhos de Tancredo - Inês Maria, Maria do Carmo e Tancredo Augusto - e divulgada ontem à noite pelo Jornal Nacional, também contesta as informações do Fantástico. À noite, Aécio repetiu e confirmou, durante o programa Roda Viva, da Cultura, o conteúdo da nota assinada pela família.

Na reportagem, o patologista Élcio Mizziara confessou que em 1985 deu um laudo para os médicos, com o diagnóstico real, e outro para divulgação pública, com diagnóstico falso, que não assustasse a sociedade. O patologista afirmou ainda que, além dos médicos, a família e o porta-voz de Tancredo, Antônio Brito, tinham conhecimento do real diagnóstico. Ouvido ontem, Aécio, então secretário particular do presidente, não confirmou nem desmentiu a informação. Disse que iria pronunciar apenas uma frase sobre o assunto: "De alguma forma, a matéria deturpa o que aconteceu, com informações fora do contexto."

A despeito da promessa, disse mais uma frase: "(A reportagem) nos encheu de indignação e perplexidade". O governador concluiu dizendo que, em relação a Tancredo, o que ficará na memória da família "é o exemplo da sua bravura enquanto homem público e da sua resistência no leito dos hospitais para que o Brasil consolidasse o seu processo de redemocratização". E completou: "É isso que fica, apesar dessa matéria absolutamente despropositada", disse.

A reportagem do Fantástico também ouviu outros médicos que acompanharam a doença do presidente eleito. O cirurgião Pinheiro da Rocha, o primeiro a operar Tancredo, disse que ficou desesperado quando constatou o quadro. O infectologista David Uip, que tratou de Tancredo no Incor, em São Paulo, contou que ele "era um paciente de alto risco já quando chegou ao Hospital de Base, em Brasília". Segundo os médicos, a morte de Tancredo se deu por síndrome da resposta inflamatória sistêmica - doença, até então, desconhecida pela medicina.

PULMÃO

A patologista Maria de Lourdes Higuchi, que fez a necropsia no corpo de Tancredo, disse que não havia, propriamente, um quadro infeccioso, mas que os pulmões estavam completamente fibrosados, em razão do prolongamento artificial da vida dele. "Ele morreu basicamente do pulmão."

A nota assinada pelos filhos de Tancredo contesta a maioria das informações prestadas por médicos ao Fantástico. Nela, a família diz desconhecer os médicos reunidos pelo programa em São Paulo e contesta a informação dada por eles de que o presidente sofria de crises de bacteremia. Diz ainda ser mentirosa a informação do médico George Washington Cunha de que Tancredo estava doente havia cerca de um ano e tomava seis medicamentos diariamente contra as crises, receitados por um balconista de São João Del Rey. A nota diz que as informações "beiram o ridículo".

A família de Tancredo também lamenta as informações prestadas por Uip, de que Tancredo tinha poucas chances de recuperação e afirma que essas declarações são o oposto das afirmações otimistas que ouviu da equipe médica.

A nota diz que é importante que todos saibam que dois médicos (o patologista Élcio Mizziara e o cirurgia Pinheiro da Rocha) foram processados pelo Conselho Regional de Medicina (CRM) do Distrito Federal, após a morte de Tancredo. Segundo o Jornal Nacional, o CRM-DF informou que os dois médicos foram apenas repreendidos internamente. "Vinte anos depois, os médicos continuam faltando com elemento básico no exercício da sua profissão: respeito aos seus pacientes", encerra a nota.